31/08/2012

CAFÉ FILOSÓFICO - EE MANUEL BANDEIRA






PROSEANDO SOBRE O LIVRO ( foto do Facebook de Jaine Lima)


Dia 29/08 estive na EE Manuel Bandeira no Bairro de Perus participando do “Café Filosófico”, à convite da professora Jaine Lima. O meu conto “Jogo Eleitoral”, extraido do C.Negros 32, já havia percorrido as tramas escolares dando passagem para o livro de poemas “Enquanto o Tambor não Chama”, discutido e sabatinado no encontro. Faltava dizer que assim que cheguei pude ouvir um poema do livro musicado pela turma. Eu e o Arthur, meu filho-fotógrafo-envergonhado. Recepção assim anunciava precaução cardíaca além do esperado. Na sala olhos atentos, perguntas engatilhadas, ouvidos aprumados. O resto é emoção que ficará aquecendo meus pensamentos nos dias ásperos. Valeu professores! Nas recordações faceboquianas postei o texto abaixo:
BALLOUK, PROFESSORES JAINE E MARCIO

TALISSON, BALLOUK, JEFERSSON ( QUE TOCA VIOLÃO ) JEFERSON , ALYSSON 
POETANDO...
  
O que é alegria? Palavra escorregadia sem sentido completo. Penso em uma lista enorme de coisas simples. Tal como pão fresquinho com casca crocante; acordar cedo e lembrar que está na praia longe de acabar as férias; ver nascer as primeiras folhinhas daquele galho que plantou sem raiz e vingou; um texto moleque que se faz poesia, me faz rir ou chorar. A lista é enorme. Mas para quem gosta de poesia, literatura, alunos interessados, professores guerrilheiros da palavra, escola responsável e desejosa em oferecer mais do que pode... Tudo isso me dá uma alegria boba, até inocente, contida dentro dos olhos, e com a certeza de quem recebeu mais do que mereceu. Agradeço. Tamo junto!





21/08/2012

FOTOS DO SARAU NA BIENAL DO LIVRO.

Fotos do Sarau na Bienal do Livro. O Bang formado por Marcio, Esmeralda, Akins, Débora, Thyko, Michel, Cosme e este escriba já deixa saudades. Agradecimento especial a  Secretaria Municipal de Educação pelo convite, pelas participações mais do que especiais de Neide Lopes, Evaristo e Mc Sophia  e quem chegou com  rap, prosa e tesão pela palavra.  Agradeço aos meus orixás por  ter participado com vocês. Até a próxima.


















17/08/2012

Quilombhoje na Bienal - 19/08 - Domingo





Olá amigos! Assim como aconteceu em 2010, Quilombhoje estará na Bienal do Livro no Stand da Secretaria Municipal da Educação, com bate-papo, sarau e muitas palavras negras. Estarei lá, com os parceiros Marcio Barbosa, Esmeralda Ribeiro, Michel Yakini, Akins kinte, Débora Garcia e você E claro! Simbora ajuntar intenções e presenças!

Segue material de divulgação: Esperamos que você esteja bem. A 22a. Bienal do Livro está acontecendo na cidade de São Paulo e irá até o dia 19 (domingo). O Quilombhoje terá duas atividades no dia 19, último dia: 
  • 12h às 13h - bate-papo sobre literatura afro-brasileira 
  • 16h às 17h - roda de poemas (microfone aberto)
 As duas atividades acontecerão no estande da Secretaria de Educação.
 Rua J número 30 (próximo à turma da Mônica). Profissionais do livro, autores incluídos, não pagam ingresso (é preciso comprovante, como um livro com o nome do autor e foto, p. ex.), assim como professores (com identificação), crianças menores de 12 anos e "jovens há mais tempo" acima de 60. Caso esteja em São Paulo, sua participação é fundamental! Estaremos te aguardando! 

Axé! Quilombhoje

06/08/2012

Homenagem - Professor Eduardo de Oliveira

(Divulgação Quilombhoje)

No próximo dia 08 de agosto, quarta, a Câmara Municipal de São Paulo irá realizar, a partir de 19h, uma homenagem ao Professor Eduardo de Oliveira, poeta que faria 86 anos no dia 06. Será uma Sessão com poesias. Abaixo segue o convite. Se estiver em SP, sua presença é importante. De qq modo, se puder ajude a divulgar.


24/07/2012

TRANSIÇÃO - Abandonaram o alisamento de Cabelos



Elas abandonaram o alisamento de cabelos

Mulheres optam por deixar a química de lado e assumir a textura natural do cabelo; tendência conhecida como transição é forte nos EUA e ganha adeptas no Brasil

"Ver meu cabelo natural pela primeira vez foi uma revelação. Ele não era nada seco e quebradiço, como eu pensava. Era crespo e gostoso de tocar”. O depoimento da britânica Zina Saro-Wina está registrado em um mini-documentário de sua autoria, recentemente publicado na versão online do jornal “The New York Times”. O filme trata sobre as mulheres que estão deixando os cabelos quimicamente alisados de lado para voltar ao look natural. De acordo com Zina, esta transição é um fenômeno que vem acontecendo entre as negras norte-americanas nos últimos três anos e o número de adeptas não para de crescer.
No Brasil não poderia ser diferente. Com a população formada por uma mistura de etnias e majoritariamente com cabelos crespos ou cacheados, o fenômeno da transição dos cabelos com química para a textura natural chegou por aqui e é amplamente discutido nas redes sociais e sites de compartilhamento de vídeos.



 
Fernando Genaro/ Fotoarena
Adriana André decidiu se livrar do alisamento de uma só vez, raspando os cabelos
O processo pode ser encarado de duas maneiras: cortar todo o cabelo de uma vez ou ir tratando a parte alisada. Cortar tudo foi a opção de Adriana André, paulistana de 27 anos. Há dois meses a cabeleireira trocou o corte liso tipo “chanel” por uma cabeça raspada na máquina um: “Vou deixar o cabelo natural, sem química. No final do ano estou pensando em fazer luzes. E se for mudar a forma de novo, quero deixar cacheado”, disse.
Os conhecidos estranharam o novo visual, mas Adriana não liga: “Me perguntam se virei lésbica, se raspei porque entrei para a umbanda, mas não estou nem aí”, conta ela, que está adorando a nova fase “curtíssimo”.
Amanda Gil, 29 anos, também optou pelo corte, mas não chegou a raspar. A profissional autônoma ficou sete meses com o cabelo de duas texturas até que decidiu fazer o chamado big chop (grande corte). Retirou toda a parte alisada, ficando com os fios bem curtinhos. “Nunca tinha usado o cabelo assim, mas não tive escolha! Depois de fazer o corte gostei, os cabelos curtos são práticos e versáteis”, diz a carioca. E completa: “Dá sim para ser feminina com os cabelos curtos. É só usar e abusar da maquiagem e dos acessórios que fazem toda a diferença!”

Arquivo pessoal
Amanda Gil esperou sete meses para os cabelos naturais crescerem antes de fazer o chamado "big chop"
A história de Amanda com alisamentos vem desde a infância, quando começou a fazer relaxamento em casa. Depois de uma experiência desastrosa – relaxou e fez escova progressiva no mesmo dia e quase ficou careca – foi terminantemente proibida de usar químicas pelo médico dermatologista. E hoje diz orgulhosa que está há um ano e cinco meses sem usar nada para mudar a forma das madeixas.
“Minha vida mudou completamente. Me sinto realmente livre. Não suporto mais ver minhas fotos de cabelo alisado. Hoje sim, me sinto linda. Amo meu cabelo e minha autoestima está sempre lá em cima. Eu entendi e aceitei que meus cachos são minha identidade”, conclui Amanda.
Jacqueline Maciel, 28, está em pleno processo de transição, com sete meses de raiz crescida. A professora mineira também começou a alisar os cabelos na infância, mas percebeu que a química prejudicava seus cabelos. Mesmo decidida a voltar à textura natural, Jacqueline confessa que o processo não está sendo fácil: “Muitas vezes a vontade de voltar a relaxar é imensa. Eu optei por não cortar os cabelos, então as duas texturas no mesmo fio dão uma aparência de mal cuidado. Além disso, os cabelos processados são fracos e começam a quebrar. É difícil lidar com a autoestima”, declara.
Jacqueline trocou químicas, secador e chapinha por uma rotina de cuidados que inclui muita hidratação, nutrição e reconstrução das madeixas. “Os fios reagem muito melhor a qualquer tratamento que eu faço”, conta.

Palavra dos especialistas
Os especialistas confirmam mesmo uma volta aos cabelos naturais. “Nove entre dez clientes que me mandam e-mail querem saber como voltar aos cachos naturais”, diz Soraia Ferretti, dona do Lunablu, salão de São Paulo especializado em cabelos crespos e cacheados.

Mas não existe milagre. Dependendo do processo pelo qual passou o cabelo, só mesmo um corte é capaz de recuperar a forma natural. Sueli Martins, do Studio Dom, de São Paulo, diz que a transição leva em média seis meses, dependendo do comprimento do cabelo: “Depois desse tempo já dá pra fazer um corte e ficar com ele todo natural”.
“Se a pessoa fez uma escova definitiva tem que ir deixar crescer e ir cortando a parte alisada. Se fez progressiva poucas vezes, existe a possibilidade de só tratar e os cachos voltarem. Se só amaciou, pode tratar que os cachos voltam na hora”, explica Robson Trindade, cabeleireiro e visagista do salão paulistano Red Door. Trindade diz que aproximadamente 70% de sua clientela quer voltar aos cabelos naturais.
Para os profissionais, quem tem o cabelo alisado e quer recuperar a textura natural tem que ter paciência. Raspar tudo é para poucas corajosas e a maioria acaba mesmo fazendo a transição gradativa. Durante este processo, além de muita hidratação para controlar o volume, é necessário que a mulher aprenda a lidar com seu novo cabelo.
“O cabelo crespo ou cacheado sem processo químico não é difícil de cuidar. Existe uma ilusão de que o cabelo liso é mais fácil, mas não é, basta saber como lidar”, afirma Soraia. Robson concorda e diz que para cabelos crespos, menos é mais. Ele recomenda lavar com um xampu que não faça muita espuma, passar condicionador e não enxaguar e em seguida secar com tecido de algodão cru ou toalha de papel para controlar o volume. Outra dica valiosa: quem quer recuperar os cachos deve abandonar a escova e ajeitar os cabelos com os dedos.
Assista ao documentário da britânica Zina Saro-Wina no The New York Times (em inglês)

12/07/2012

Soldados negros que lutaram por SP são tema de livro- Revolução 1932


                                                          Deu na Folha de SP , dia  09/07/12



Soldados negros que lutaram por SP são tema de livro

DE SÃO PAULO
O jornalista Oswaldo Faustino resgatou a participação de unidades militares de voluntários negros paulistas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, conhecida como Legião Negra.






OSWALDO FAUSTINO
Em seu livro "A Legião Negra" (Selo Negro, 2011, 224 págs.), a história é contada por meio de dois personagens: Tião Mão Grande, o narrador centenário; e Miro Patrocínio, mestiço que nega a sua origem, mas "se torna negro" devido às circunstâncias.
Folha - Por que decidiu contar a história da Legião Negra em forma de romance histórico em vez de livro de não-ficção?
Oswaldo Faustino - Antes de tudo porque eu sou jornalista e escritor, não historiador. Minhas pesquisas não se basearam em documentos, mas em publicações, em entrevistas realizadas com filhos e netos de combatentes e numa específica, que aconteceu em 1975, com o doutor Raul Joviano do Amaral. Como membro da Legião Negra, ele chegou a tenente.
Há planos para filmar a história? O livro é um roteiro?
Honestamente, se um dia a Legião Negra virar filme, vou achar sensacional, mas só a oportunidade de mergulhar nessa história e poder produzir um romance já é extremamente compensadora.
Por que negros e mulatos tiveram interesse em se voluntariar para lutar por São Paulo na Revolução de 1932, que muitos historiadores consideram um conflito das elites?
Como a Frente Negra [principal organização negra da época] se declarou neutra, o advogado Joaquim Guaraná Santana e o orador Vicente Ferreira saíram -ou foram expulsos- dessa instituição, criaram a Legião Negra e saíram em caravana alistando negros e arrecadando donativos para o pagamento de seus soldos e para sustentar as famílias dos voluntários.

19/06/2012

APERTE O PLAY NA POESIA: EXPOSIÇÃO + SARAU LITERÁRIO












 

O coletivo “Literatura Suburbana” mapeou a produção literária nas periferias de São Paulo e registrou em áudio as poesias declamadas pelas vozes dos próprios escritores. O material gravado será distribuído na web, mas quem quiser conhecer esta produção de perto está convidado a participar do sarau de lançamento do áudio-book “Play na Poesia: Vol. 1” que será realizado no dia 21 de julho e contará com a participação dos poetas Michel Yakini, Si Nha, Samanta Bioti, Daniel Minchoni, Akins Kintê, Emerson Alcalde, Jader de Oliveira e outros. Os interessados também poderão entrar em contato com estas produções visitando a exposição “Play Na Poesia”, em exposição até o dia 19 de agosto na Área de Convivência do CCJ. Mais informações: http://playnapoesia.com.br/
Ficha Técnica:
Administrativo e articulação: Anderson Lima
Designer gráfico: Mamuti; Produção: Israel Neto
Co-produção e articulação: Bruno Pastore
Operador de áudio: Iuri Stocco
Exposição: De 23/06 a 19/08, terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h. Área de Convivência.
Sarau: Dia 21/07, sábado, das 18h às 21h30. Espaço Sarau. 70 lugares. Retirar ingressos no dia do evento, a partir das 17h, na recepção do CCJ.

13/06/2012

o tambor entre os pares


ESTANTE SUBURBANO CONVICTO : O TAMBOR ENTRE OS PARES...


ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA...

Fonte: Quilombhoje




Este livro de poemas lançado no ano passado remete a uma frase atribuída ao escritor Tolstói: “Se queres ser universal, canta a tua aldeia”.

Sempre presente quando se fala de literatura afro-brasileira, a questão da universalidade não reside somente na esfera literária: quantos negros não se sentem solitários, isolados, quando estão num ambiente em que são minoria e não encontram espaço para vivenciar sua individualidade? Quantos não anseiam uma universalidade que significa perder a própria identidade em função dos padrões de identidade veiculados pelos livros consagrados e pelos veículos de grande mídia?

A metáfora do tambor já nos dá pistas: o tambor pode "chamar", pode convocar para uma visita à ancestralidade, mas "bater o tambor" para muitos significa um distanciamento. Esses que se distanciam falam de “bater o tambor” como se falassem de algo já antigo, fora de moda, "primitivo", quando na verdade o que vemos todo dia é uma reafirmação da ancestralidade africana. “Bater o tambor” para alguns já remete a uma oposição cultural: antigo X moderno (África X Ocidente). Uma falsa oposição, já que o tambor convive cada vez mais com a tecnologia. A ancestralidade não exclui a modernidade, assim como a emoção não exclui a reflexão.

Ao cantar a família, o bairro, a cidade, as emoções que afloram no dia a dia, em belos poemas construídos com um lirismo rítmico, Sergio Ballouk nos leva por ruas, avenidas, situações em que qualquer um pode se ver. A ironia e a provocação também fazem parte desse cardápio no qual os poemas residem para despertar o leitor.

Sergio tem o mérito de buscar o que é universal na vivência afro e trazer isso em textos (com conotação biográfica ou não) em que a forma remete ao som dos atabaques:

 
DO ADJÁ CONTRA O AR

a poesia vem da oferta do fim de feira
do nervosismo do choro contido
da panela vazia que cai no chão

a poesia vem da arrebentação das rochas
do coice da mula
do adjá contra o ar

a poesia vem do dedinho torcido
das dores do parto
da marca no couro

a poesia vem do sobrenome do dono
do nascido de nome gritado
do bom filho criado
para o mundo


Livro: Enquanto o Tambor não Chama – Poemas
Autor: Sergio Ballouk
Quilombhoje Literatura
Contato
sergioslv@ig.com.br
www.sergioballouk.blogspot.com

06/06/2012

do blog http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=36368 



Professores Maria Nazareth e Eduardo de Assis

Literatura Negra
“Muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente”
Causa Operária entrevista o professor Eduardo de Assis Duarte, coordenador do projeto integrado de pesquisa afrodescendências: raça/etnia na cultura brasileira, responsável pela coleção Literatura e Afrodescendência no Brasil e o literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, sobre o livro, coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (Ed. UFMG, 2011), organizado por ele

19 de maio de 2012
Causa Operária: Qual a importância da publicação da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica para o estudo da literatura negra?
Eduardo de Assis: Obra coletiva, a antologia é fruto de 10 anos de trabalho e reúne 61 pesquisadores de diversas universidades, de todas as regiões do país. Traz um conjunto de 100 escritoras e escritores brasileiros afrodescendentes, muitos deles deixados à margem da história de nossa literatura. Cada um é contemplado com um artigo crítico contendo dados biográficos, apresentação geral da obra, informações bibliográficas e fontes de consulta. Ao final, temos os textos escolhidos pelo pesquisador. É um formato voltado para a divulgação e o estudo destes autores, resgatando muitos deles do esquecimento. Esperamos que, a partir de agora, possam estar mais presentes em nossas bibliotecas e salas de aula. 
Causa Operária: Quando e por que surgiu a iniciativa de realizar esse trabalho? 
Eduardo de Assis: Desde os fins dos anos 90, vimos discutindo a necessidade de construir uma antologia crítica que divulgasse e estudasse a produção literária afro-brasileira, devido à grande ausência de materiais pedagógicos a respeito desta vertente de nossas letras. A pesquisa propriamente dita teve início em 2001. 
Causa Operária: O negro escrito, de Oswaldo de Camargo, pode ser considerado uma obra precursora desse estudo? 
Eduardo de Assis: Sem sombra de dúvida, é um livro-guia, um texto fundamental. A obra de Oswaldo de Camargo, como um todo, precisa ser mais bem estudada, pois, além do jornalismo, abrange poesia, ficção e ensaio. E, em todos esses segmentos, temos literatura da mais alta qualidade, marcada por esmerado apuro formal. Já O negro escrito é de grande importância para o estudo desses autores, um trabalho pioneiro e de fôlego. O livro é de 1987 e, antes dele, apenas estudiosos estrangeiros tinham produzido obras densas de conteúdo sobre a questão. E a grande vantagem é que Camargo acrescenta uma preciosa antologia ao final, que abre caminhos para o conhecimento de textos pouco divulgados. Passados 25 anos, é preciso reeditar O negro escrito o quanto antes. 
Causa Operária: Como foi trabalhar com os escritores que participaram da antologia Literatura e afrodescendência no Brasil? 
Eduardo de Assis: Foi um trabalho extremamente gratificante. À medida que íamos conhecendo os autores, fomos vendo o quanto tínhamos para aprender. Nosso repertório de leituras se ampliou largamente ao longo desta década e hoje acredito estarmos bem mais informados. E não só a respeito da escrita afro-brasileira propriamente dita, mas de todo um contexto histórico que exclui o negro da literatura e da cultura erudita como um todo. Além disso, colhemos depoimentos preciosos de autores como Abdias Nascimento, Oswaldo de Camargo, Cuti e Conceição Evaristo, entre outros, transcritos no volume 4 da coleção. E muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente. 
Causa Operária: Quais foram as dificuldades encontradas para a realização da pesquisa? 
Eduardo de Assis: Foram inúmeras. Primeiramente, a extensão do material a ser pesquisado, pois começamos com uma lista de 255 nomes. Em seguida, o estabelecimento de critérios de seleção: depois de muito discutirmos, o grupo definiu que deveríamos ter como foco a produção poética e ficcional, o que deixou de fora os ensaístas, por exemplo. Outro critério estabelecido foi o de, num primeiro momento, privilegiar autores com pelo menos um livro individual publicado. Além disso, não foi fácil encontrar os textos de alguns autores já falecidos ou de fora do eixo Rio-São Paulo. E, ainda, a localização de herdeiros detentores de direitos autorais, só para ficarmos nos obstáculos mais difíceis de transpor. 
Causa Operária: Alguns autores tiveram então que ficar de fora? 
Eduardo de Assis: Sim. Ensaístas do porte de Alberto Guerreiro Ramos, Manoel Querino, Clovis Moura, Lélia Gonzalez e muitos mais. E, também, poetas e ficcionistas sem obra individual ou que não desejam assumir ou explicitar a identidade negra ou afro-brasileira para seus escritos. 
Causa Operária: Existem entendimentos diferentes entre a crítica sobre o que venha a ser a literatura negra? Qual a definição mais corrente? 
Eduardo de Assis: Sim. Há inclusive quem defenda a existência de uma literatura negra escrita por brancos... Ou seja, basta o tema e nada mais. Isso abre espaço para toda uma produção a que chamamos “negrismo”, isto é, marcada pelo descompromisso do olhar externo e folclórico, muito comum entre os modernistas, como Raul Bopp ou Jorge de Lima. Na época, a lucidez de Oswald de Andrade alertou para o que chamava de “macumba para turistas”... O negrismo é forte entre nós e tem tradição, remete à Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, em pleno Romantismo e está em vários outros textos. Voltando à questão conceitual, a definição mais corrente é a de uma literatura escrita por pessoas que assumem a condição de negras, explicitam uma visão de mundo oriunda dessa condição e que se voltam para a escrita, seja para valorizar o vasto repertório cultural herdado dos africanos, seja para protestar e denunciar o racismo e a desigualdade ainda vigentes entre nós. Esse perfil militante caracteriza diversos autores, mas não todos, o que aponta para a insuficiência até certo ponto do conceito.  
Causa Operária: E quanto ao conceito de literatura afro-brasileira?
Eduardo de Assis: Para muitos, é sinônimo de literatura negra. E, de fato, ambos os conceitos adotam critérios comuns em sua constituição, como a autoria, o tema, a busca de um público específico, a linguagem empenhada em combater os tabus linguísticos de fundo racista, entre outros. Mas concordo que “literatura afro-brasileira” é um termo mais amplo, pois engloba aqueles autores que, embora assumindo um ponto de vista identificado ao negro e à sua cultura, fogem do texto abertamente militante ou panfletário; e que, às vezes, falam mais do branco do que do negro, a exemplo de Machado de Assis. Autores, enfim, que manifestam sua negrura (ou negrícia) de modo mais sutil. De todo modo, essa é uma discussão em processo, e de importância apenas relativa. O fundamental é constatarmos que a presença do negro na cultura não se limita à música, à dança ou ao esporte – espaços, aliás, onde muitos os querem confinar. Também na literatura há um grande contingente de autores com textos de relevância histórica e bem construídos enquanto obra de arte. 
Causa Operária: Qual a situação da crítica literária atualmente com relação à literatura negra? 
Eduardo de Assis: No passado, salvo algumas exceções, a atitude era de deliberado desconhecimento. E são raros os manuais de história da literatura brasileira que abordam autores como Luiz Gama, Solano Trindade ou Abdias Nascimento. No presente, nota-se um interesse maior, tanto em autores vivos – Nei Lopes, Cuti, Miriam Alves, Joel Rufino dos Santos, Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Conceição Evaristo, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, Salgado Maranhão, Edimilson de Almeida Pereira –, quanto no processo de redescoberta de nomes como os paulistas Lino Guedes (que deixou 13 livros publicados nas décadas de 1930 e 1940) e Paulo Colina, o paraense Bruno de Menezes, o paraibano Arnaldo Xavier, o maranhense Nascimento Moraes, o gaúcho Oliveira Silveira, o mineiro Adão Ventura, e vários outros. 
Causa Operária: Como a literatura negra se relaciona com a literatura brasileira em geral e qual a importância de um segmento especificamente negro em nossas letras? 
Eduardo de Assis: A literatura afro-brasileira jamais deixará de ser brasileira, de ser escrita em português do Brasil (com todas as contribuições vocabulares trazidas pelos africanos e seus descendentes), de utilizar praticamente os mesmos gêneros literários, procedimentos e formas de expressão. É, portanto, um segmento, uma faceta específica de nossa literatura. Mas que reivindica sua autonomia, sobretudo quanto a um ponto de vista identificado com a cultura e com a história de lutas do povo negro. Ponto de vista que se traduz, por exemplo, na desconstrução de estereótipos racistas, via de regra manifestos na linguagem. A vertente afro confere à literatura brasileira uma maior diversidade e variedade de abordagens, seja no enfoque da questão social, seja na linguagem com que toda essa história é traduzida em palavras, pois registra o olhar do Outro, do subalterno que quase nunca pode falar. 
Causa Operária: A literatura negra é ainda vista como um segmento marginal da literatura brasileira? 
Eduardo de Assis: Em alguns salões – e muitas salas de aula – infelizmente ainda sim. Mas a história é, antes de tudo, discurso. Logo, precisa ser reescrita a cada dia. Sou otimista e acredito que, no momento em que o Brasil for uma sociedade multiétnica verdadeiramente democrática em todos os sentidos, então seremos todos respeitados em nossas diferenças e não será necessário especificar este ou aquele segmento para que o mesmo possa ser acolhido como parte de nossa civilização. 
Causa Operária: Qual foi a repercussão desse trabalho quando lançado e, em especial, entre o movimento negro? 
Eduardo de Assis: Houve repercussões variadas, inclusive de um poeta que disse que esse assunto não existe... que falar disto é “preconceito cultural”, e muitas outras bobagens. Mas, na grande maioria dos casos, a antologia foi muito bem recebida, entrou na lista dos 10 livros mais importantes de 2011 do jornal O Globo, e esgotou a primeira edição em apenas dois meses. E também no âmbito do movimento negro tivemos uma recepção altamente favorável. O fato é que o negro sempre falou, escreveu e publicou. E hoje continua a falar, escrever e publicar. Só que boa parte dessa produção careceu (e ainda carece) de uma maior visibilidade. 
Causa Operária: Um dia antes do lançamento desse estudo, Ferreira Gullar publicou um artigo na imprensa onde nega a existência de uma “literatura negra”, fala em literatura simplesmente. Como você encara essa opinião de Gullar? 
Eduardo de Assis: Encaro com naturalidade e com todo respeito à diferença. Ele é um homem de outro tempo, nascido na grande fazenda patriarcal brasileira da primeira metade do século passado. Tem suas convicções. Agora, não deixa de ser frustrante ver alguém que já foi de esquerda falar em “literatura simplesmente”, em “literatura tout court” e termos semelhantes, numa posição formalista e esteticista, numa postura burguesa e eurocêntrica, que seus camaradas de geração chamariam simplesmente de alienada... Enfim, uma postura tradicional e acadêmica no pior sentido da expressão. 
Causa Operária: A opinião de Gullar é uma opinião geral? 
Eduardo de Assis: Não acredito. Talvez seja a opinião da Folha de S. Paulo, onde a crônica dele foi publicada e que não acatou nenhuma das réplicas que para lá foram enviadas. 
Causa Operária: Qual a situação da literatura negra hoje?  
Eduardo de Assis: Considero que é de franco crescimento. Nos últimos anos, saíram pelo menos 10 bons romances, assinados por Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes, Francisco Maciel, Paulo Lins, Conceição Evaristo, Oswaldo Faustino, Ana Maria Gonçalves, entre outros. Um defeito de cor, escrito por esta última, ganhou o Prêmio Casa de las Américas de 2006, e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, vendeu nada menos que 20.000 exemplares no Brasil, além de esgotar a tradução norte-americana. Ainda na ficção, temos a nova edição de A descoberta do frio, de Oswaldo de Camargo, e diversos volumes de contos, de autoras como Miriam Alves, Lia Vieira, a própria Conceição Evaristo, além de jovens como Lande Onawale, Cristiane Sobral, Cidinha da Silva, Ademiro Alves (Sacolinha), Allan da Rosa, e muitos mais. Na poesia, estão em plena atividade Cuti, Edimilson de Almeida Pereira, José Carlos Limeira, Salgado Maranhão, Ronald Augusto, Domício Proença Filho, entre tantos. E ainda toda uma geração que passa por Lívia Natália e Mel Adún, na Bahia; Ana Cruz e Cyana Leahy, no Rio de Janeiro; Waldemar Eusébio e Marcos Dias, em Minas. No campo fértil da literatura infantil e infantojuvenil, a cada dia surgem livros novos de Júlio Emílio Braz, Rogério Andrade Barbosa, Heloisa Pires, Joel Rufino dos Santos, Cidinha da Silva, além de toda uma geração de novos autores e autoras buscando espaço no meio editorial. E segue firme a descentralização da produção, com editoras cujo foco é afro: Pallas, no Rio de Janeiro; Selo Negro, em São Paulo; Mazza e Nandyala, em Belo Horizonte. Para concluir, não custa lembrar que a ONG Quilombhoje, de São Paulo, mas com ramificações em todo o país, mantém uma tradição ininterrupta de publicações coletivas desde 1978 – a série Cadernos Negros – que edita todo ano um volume de prosa ou poesia com média de 20 autores por livro. Em 2011, veio a público o número 34.

ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO!

     ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO! Minha grata surpresa foi a tradução de alguns poemas para o espanhol por Demian Paredes, da Argen...