08/05/2013

Memória da Noite - Abelardo Rodrigues




(do Ciclo Contínuo- Facebook) "Abelardo Rodrigues poeta e autor de Memória da Noite Revisitada e outros Poemas, a ser lançado dia 10 de maio de 2013 em São Paulo, nos fala um pouco sobre memória, literatura e criação.
Confira!
Editada por Marciano Ventura

Abelardo Rodrigues...

MINHA TRAJETÓRIA
começa com artigos publicados nos jornais O Vale Paraibano, de São José dos Campos, trabalhei no O Diário de São José, onde publiquei uma série de textos em prosa. Passei rápido pelo jornal Agora, de São José, tudo isso na década de 1970. Publiquei até um pequeno conto no antigo Notícias Populares, de São Paulo quando já morava por aqui.
Tinha alguns contos e versos rabiscados, e não pensava seriamente em poesia. Foi quando conheci Oswaldo de Camargo com quem aprendi que a poesia podia mudar corações e mentes, ou pelo menos, dar um choque em nossas consciências.
Nessa época, existia uma grande efervescência cultural: a poesia marginal, a geração mimeógrafo, livros sendo vendidos de mão em mão, tudo muito artesanal... E à margem do estabelecido, contestações do momento político que estávamos vivendo e, que estava se esvaindo. Tudo isso somado aos encontros literários com escritores negros, Paulo Colina, Cuti, o argentino Mario Jorge Lhescano, contista e tradutor de poetas cubanos, casado com uma brasileira negra e grande conhecedor da literatura de seu país de origem. Fundamos, ou criamos o Grupo Quilombhoje com a proposta de mudanças literárias, de contestar a literatura na qual nós, negros, éramos os excluídos, éramos os indesejados, invisibilizados. As coisas aconteciam rapidamente. E a poesia fluía com grande intensidade, influenciada pelas lutas de libertação dos países africanos de língua portuguesa, Angola e Moçambique, somados à nossa dor pelo sofrimento dos sul-africanos vítimas do Apartheid.
Muitas rodas de poemas, leituras dos poetas negros Áimé Cesáire, Agostinho Neto, meu poeta amado, Arlindo Barbeitos autor de Angola Angolê Angolema, que tive o prazer de conhecer quando ele esteve em São Paulo. E assim, fui caminhando. Depois, o grupo se desfez, ainda houve o Triunvirato, quizilas literárias mil, que fizeram essa literatura negra paulistana crescer ainda mais. O resto é história. E o tempo nos absolveu, a todos.

JÁ A POESIA...
quando eu escrevia textos em prosa, talvez já fosse poeta. Uma certa tristeza, uma certa melancolia, uma certa quizila com as coisas pré-estabelecidas. A poesia brotou em mim acordada por esses sentimentos do mundo, como uma pedra no meio do meu caminho. Pedra, que quanto mais eu tento removê-la, mais ela se fixa em minha alma, um vício, um ofício do meu ser. É difícil dizer quais são os "aspectos decisivos" para minha criação... A vida como ela é, como foi e está sendo para mim. Todo o meu olhar indagador para o mundo. Um baú de memória se enche de algo que precisa esgueirar-se pelas palavras: a Poesia.

NOVA GERAÇÃO
é um continuum. Nosso corpo literário que se vai estendendo, e se distendendo. Formas diferentes de ver a mesma coisa, a mesma dor, a mesma exclusão, as novas formas de sonegar verdades e meias verdades. Uma nova linguagem e ritmo incitando a nossa consciência poética e política. Porque a nossa literatura, pela própria necessidade de se dizer e questionar o status quo; é política. Esses falares e vontades de se fazer uma literatura voltada para a nossa vida e a vida de todos os brasileiros continuam com essa juventude que brande essas palavras e livros desde a periferia até o centro. Nossa literatura vai se espichando até enrolar-se no mundo. Até abraçar-se ao mundo.

TENHO LIDO
principalmente poesia. Um pouco aleatório. Sempre fui indisciplinado comigo mesmo. O Cuti, sempre me cobrou isso. Mas estou lendo os jovens poetas que chegam às minhas mãos... E outros clássicos já, como Leminski, por exemplo. Li pela primeira vez Diário de um Retorno ao País Natal, de Aimé Césaire, O Cavaleiro de Bronze e outros Poemas, de Aleksander Púchkin, Cadernos Negros, e livros de crítica literária, como Afro Descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU, de Florentina da Silva Ramos. Eu fiquei afastado muitos anos do contato social literário de nossa comunidade. Por isso, faço leituras esporádicas dos nossos autores e autoras. Algumas pela internet, outras em antologias. Muita coisa pra ler e quase nenhum tempo. Li também esses jovens poetas Michel Yakini de Acorde um Verso, Sergio Ballouk de Enquanto o Tambor não Chama e Negraciosa de Sidney de Paula Oliveira, Akins Kinte, que li nos Cadernos Negros. Cito também, escritoras bem representativas no cenário, como minha velha amiga Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, a escritora Conceição Evaristo, Cidinha Da Silva, e outras tantas que trafegam com suas palavras no universo da literatura. As coisas estão acontecendo, e isso é muito importante para a nossa comunidade, tão desprovida de voz e vez.

MEMÓRIA DA NOITE REVISTADA E OUTROS POEMAS
significa um grande salto do muro do autoesquecimento em que eu estava mergulhado - embora escrevendo e atento à vida literária - neste tempo em que estamos. A vida é criação. Suar e criar. A literatura brasileira tem que ter nosso suor, e ainda, o nosso sangue contado, mesmo que em palavras roucas; pelo frio distanciamento que a História do nosso país nos relegou."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO!

     ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO! Minha grata surpresa foi a tradução de alguns poemas para o espanhol por Demian Paredes, da Argen...