
Outro dia comentava feliz que não precisava mais explicar a
legitimidade da literatura afro-brasileira, era página virada, conceito
aceito. Ponto. Pois é. Éis que Narciso larga o espelho e tal parafuso
perdido de engenhoca escravagista, vem a público, jabutizadamente,
questionar o que está nas ruas, nos saraus, nas bocas, nos livros, tema de pós, mestrados, doutorados...
Uns dizem, não acredito, logo ele, pô! Outros, já esperava dele mesmo!
Mas se ele pediu, e com jeito, educação européia de sinhô, acho que
vou acatar, parar de pensar, escrever, ler, declamar por aí... Fica a
pergunta: E como impedir as outras centenas quando se atreverem a
segurar uma caneta e deixar escorrer um pouco de escrevivência? Tapinha
na mão com receituário do Poema Sujo?
Em tempo1 - Escrevivência é neologismo de Conceição Evaristo, vá brigar com ela.
Em tempo2 – Hoje tem Sarau Elo da Corrente com o lançamento do livro Mulher
Mat®iz de Miriam Alves. Não era pra falar, xi. Perdão. Fui mal!
Resumo: EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO NÃO SE MEXE!
"por Cuti enviado para o Portal Geledés"
Desdobramento texto de Ferreira Gullar -
Preconceito Cultural. "Cruz e Souza e Machado de Assis foram herdeiros
de tendências européias: não se pode afirmar que faziam literatura
negra..." - Folha de São Paulo (Ilustrada) de 03/12/2011.
Por conta da publicação, em quatro volumes, da Literatura e
Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelos
professores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Fonseca, seja pela
apresentação gráfica sofisticada da obra, seja pelo seu aporte crítico
envolvendo profissionais de diversas universidades brasileiras e
estrangeiras, a questão de ser ou não ser negra a vertente da literatura
brasileira que compõe seu conteúdo tem trazido à tona manifestações que
vão desde respeitosas e aprofundadas abordagens até esdrúxulos pitacos
de quem demonstra sua completa ignorância do assunto, má vontade e
racismo crônico. Neste último caso está o que publicou Ferreira Gullar,
com o título "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada, do
jornal Folha de São Paulo, de 04/12/2011.
O autor do Poema Sujo, no qual compara um urubu a um negro de fraque,
deve estar estranhando (estranheza é a palavra que ele emprega) que o
negro não é uma simples idéia desprezível, mas um imenso número de
pessoas, cuja maior parte, hoje, não come carniça, e que aqueles ainda
submetidos à miséria mais miserável jamais quiseram fazer o trabalho
daquela ave, e que se a "a vasta maioria dos escravos nem se quer
aprendia a ler", como diz ele, não é porque não queria. Era proibida. Há
vários dispositivos legais e normas que comprovam isso. Havia uma
vontade contrária. Há e sempre houve um querer coletivo negro de revolta
contra a opressão racista.
Quanto a existir ou não literatura negro-brasileira, deixemos de
hipocrisia. No mundo da cultura só existe o que uma vontade coletiva, ou
mesmo individual, diz que sim e consegue vencer aqueles que dizem não.
Foi assim com a própria literatura brasileira e os tantos ismos que por
aqui deixaram seus rastros. Características, traços estilísticos,
vocabulário etc, que demarcam a possibilidade de se rotular um corpus
literário, no tocante à produção literária negra, já vem sendo
estudados. Basta lembrar três antologias de ensaios: Poéticas
afro-brasileiras, de 2002, com 259 páginas;
A mente afro-brasileira (em três idiomas), de 2007, com 577 páginas;
Um tigre na floresta dos signos, de 2010, com 748 páginas, além de
outras reuniões de textos, estudos, dissertações e teses. Por outro
lado, se Cruz e Sousa e Machado de Assis, como argumenta Gullar "foram
herdeiros de tendências literárias européias", e, portanto, "não se pode
afirmar que faziam literatura negra", o que dizer de Lépold Senghor e
Aimé Césaire, principais criadores do Movimento da Negritude, embora
herdeiros da tradição literária francesa? A literatura não é só
resultado de si mesma. Só uma perspectiva genética tacanha desconheceria
outras influências do texto literário, tais como a experiência
existencial do autor, sua formação política e ideológica, o contexto
social, entre tantas mais. Nenhum escritor é obrigado a reproduzir suas
influências.
A maneira como o tal poeta cita o samba, a dança, o carnaval, o
futebol é aquela que simplesmente aponta o "lugar do negro" que o branco
racista determinou, um lugar que serviu de "contribuição" para que os
brancos ganhassem dinheiro, não só produzindo sua arte a partir do
aprendizado com os negros, mas também explorando compositores
diretamente e calando-os na sua autoafirmação étnica. Basta inventariar
quantos grandes compositores negros morreram na miséria. A essa
realidade o poeta chama de: "nossa civilização mestiça". Mas, pelo
visto, a literatura, sendo a menina dos olhos da cultura, deve ser
defendida da invasão dos negros. O escritor e crítico Afrânio Peixoto,
lá no passado, deixou a expressão bombástica sobre a literatura ser "o
sorriso da sociedade". Gullar não pensa isso, com certeza, mas em seus
pobres argumentos está a ruminar que a literatura não pode ser negra.
Talvez sinta que a negrura pode sujá-la, postura bem ainda dentro do
diapasão modernista que abordou o negro pelo viés da folclorização.
A esquerda caolha e daltônica brasileira sempre se negou a encarar o
racismo existente em nosso país. Por isso andou e anda de braços e
abraços com a direita mais reacionária quando se trata de enfrentar o
assunto. Para ela, a mesma ilusão dos eugenistas, tipo Monteiro Lobato,
se apresenta como verdade: o negro vai (e deve) desaparecer no processo
de miscigenação. Para alguns cristinhos ressuscitados dos porões da
ditadura militar e seus seguidores sobreviveria e sobreviverá apenas o
operariado branco. Concebem isso completamente esquecidos de que a cor
da pele e traços fenotípicos estão inseridos do mundo simbólico, o mundo
da cultura. No seu inconsciente, o embranquecimento era líquido e
certo, solução de um "problema". Hoje, é provável que os menos estúpidos
já tenham se deparado com as estatísticas e ficado perplexos. Gullar,
pelos seus argumentos, se coloca como um representante da encarquilhada
maneira de encarar o Brasil sem a participação crítica do negro. E, como
é de praxe, entre os encastelados no cânone literário brasileiro,
incluindo os críticos, não ler e não gostar é a regra. Em se tratando de
produção do povo negro, empinam e entortam ainda mais o nariz. Devem se
sentir humilhados só de pensar em ler o que um negro brasileiro
escreveu e, no fundo, um terrível medo de verem denunciado o seu
analfabetismo relativo a um grave problema nacional: o racismo, ou serem
levados a cuspir no túmulo de seus avós.
Gullar diz ser "tolice ou má-fé" se pensar um grande público
afrodescendente como respaldo da produção literária negra. Será que ele
algum dia teve em seu horizonte de expectativa o leitor negro?
Certamente não, como a maioria dos escritores brancos. Isso, sim, é
tolice, má-fé e, cá entre nós, uma sutil forma de genocídio cultural,
próxima daquela obsessão de se matar personagens negros. E não adianta
nesse quesito invocar um parente mulato como, em outros termos, fez o
imbecil parlamentar racista Bulsonaro.
Antonio Cândido, em entrevista publicada na revista Ethnos Brasil, em
março de 2002, com o título "Racismo: crime ontológico", fazendo sua
autocrítica relativa à sua omissão, por muito tempo, do debate sobre a
questão racial, argumenta que o "nó do problema" estaria "no aspecto
ontológico", e prosseguindo: "está no drama, para o negro, de ter de
aceitar uma outra identidade, renegando a sua para ser incorporado ao
grupo branco." Façamos um acréscimo ao que disse o consagrado mestre. A
questão racial é um problema ontológico no Brasil porque diz respeito
também ao ser branco, pois o debate sobre o problema enfrenta a ilusão
da superioridade congênita do branco, que o racismo insiste em manter
cristalizada na produção intelectual brasileira. Ele, o branco, tem o
drama de ser forçado a aceitar uma outra identidade que não aquela de
superioridade congênita que o racismo lhe assegurou, de ser obrigado
pelo debate a experimentar a perda da empáfia da branquitude, descer do
salto alto. Aliás, o sociólogo Guerreiro Ramos nos legou um ensaio
elucidativo do assunto, intitulado "A patologia social do branco
brasileiro".
A produção intelectual não é tão somente uma exclusividade de brancos
racistas, apesar de certa hegemonia ainda presente. Além de brancos
conscientes da história do país, negros escrevem, publicam livros e
falam não só de si, mas também dos brancos, dos mestiços e de todos os
demais brasileiros. Quem não leu e não gostou dessa produção, em
especial a do campo literário, já não está fazendo tanta diferença. A
crítica binária,baseada no Bem X Mal, está enfraquecida. Um dos
propósitos de seus defensores quando pensam negros escrevendo é o de
tirar o entusiasmo dos filhos e dos netos daqueles que por muitos
séculos lhes serviram a mesa e lhes limparam o chão e mesmo daqueles que
ainda o fazem. A vontade coletiva negra está em expansão e não é só no
campo literário. Assim, quando o poeta Ferreira Gullar diz que falar em
literatura negra não tem cabimento, é de ser fazer a célebre pergunta:
"Não tem cabimento para quem, cara-pálida?" A sua descrença no que chama
de "descriminação" na literatura, crendo que ela não "vá muito longe" e
gera "confusão" é o simples reflexo da baixa expectativa de êxito que a
maioria dos brancos tem em relação aos negros, resultado dos
preconceitos inconfessáveis, passados de geração para geração, para
minar qualquer ímpeto de autodeterminação da população negra.
Para Aristóteles havia os gregos e o resto (os bárbaros). O branco
brasileiro precisa superar este complexo helênico de pensar que no
Brasil há os brancos e o resto (mestiços e negros). Tal postura é uma
das responsáveis pelo descompasso da classe dirigente em face da real
população. Certamente, essa é a razão de Lima Barreto, o maior crítico
do bovarismo brasileiro, ainda ser muito pouco ensinado em nossas
escolas. O daltonismo de Ferreira Gullar, advindo de um tempo de utopia
socialista, hoje é pura cegueira. Traços físicos que caracterizam
historicamente os negros não são
só traços físicos, como quer o articulista, mas representações
simbólicas, por isso perfeitamente suscetíveis de gerar literatura com
especificidades. Se o poeta não concebe negros possuidores de
consciência crítica no país e as históricas particularidades de sua
gente, devia fazer a sua autocrítica e não insistir na cegueira. Não dá
mais para negar que a classe C está disputando também assentos no vôo
literário, além dos bancos de universidades, nos shoppings e outros
espaços sociais. E a população negra também faz parte dela. Quem não
quiser enxergar vai continuar vivendo embriagado por esta cachaça
genuinamente brasileira, produzida nos engenhos decadentes: o mito da
democracia racial. Pena que alguns, de tão viciados, não largam a
garrafa.
Luiz Silva (Cuti), escritor, doutor em literatura brasileira.