06/06/2012

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Professores Maria Nazareth e Eduardo de Assis

Literatura Negra
“Muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente”
Causa Operária entrevista o professor Eduardo de Assis Duarte, coordenador do projeto integrado de pesquisa afrodescendências: raça/etnia na cultura brasileira, responsável pela coleção Literatura e Afrodescendência no Brasil e o literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, sobre o livro, coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (Ed. UFMG, 2011), organizado por ele

19 de maio de 2012
Causa Operária: Qual a importância da publicação da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica para o estudo da literatura negra?
Eduardo de Assis: Obra coletiva, a antologia é fruto de 10 anos de trabalho e reúne 61 pesquisadores de diversas universidades, de todas as regiões do país. Traz um conjunto de 100 escritoras e escritores brasileiros afrodescendentes, muitos deles deixados à margem da história de nossa literatura. Cada um é contemplado com um artigo crítico contendo dados biográficos, apresentação geral da obra, informações bibliográficas e fontes de consulta. Ao final, temos os textos escolhidos pelo pesquisador. É um formato voltado para a divulgação e o estudo destes autores, resgatando muitos deles do esquecimento. Esperamos que, a partir de agora, possam estar mais presentes em nossas bibliotecas e salas de aula. 
Causa Operária: Quando e por que surgiu a iniciativa de realizar esse trabalho? 
Eduardo de Assis: Desde os fins dos anos 90, vimos discutindo a necessidade de construir uma antologia crítica que divulgasse e estudasse a produção literária afro-brasileira, devido à grande ausência de materiais pedagógicos a respeito desta vertente de nossas letras. A pesquisa propriamente dita teve início em 2001. 
Causa Operária: O negro escrito, de Oswaldo de Camargo, pode ser considerado uma obra precursora desse estudo? 
Eduardo de Assis: Sem sombra de dúvida, é um livro-guia, um texto fundamental. A obra de Oswaldo de Camargo, como um todo, precisa ser mais bem estudada, pois, além do jornalismo, abrange poesia, ficção e ensaio. E, em todos esses segmentos, temos literatura da mais alta qualidade, marcada por esmerado apuro formal. Já O negro escrito é de grande importância para o estudo desses autores, um trabalho pioneiro e de fôlego. O livro é de 1987 e, antes dele, apenas estudiosos estrangeiros tinham produzido obras densas de conteúdo sobre a questão. E a grande vantagem é que Camargo acrescenta uma preciosa antologia ao final, que abre caminhos para o conhecimento de textos pouco divulgados. Passados 25 anos, é preciso reeditar O negro escrito o quanto antes. 
Causa Operária: Como foi trabalhar com os escritores que participaram da antologia Literatura e afrodescendência no Brasil? 
Eduardo de Assis: Foi um trabalho extremamente gratificante. À medida que íamos conhecendo os autores, fomos vendo o quanto tínhamos para aprender. Nosso repertório de leituras se ampliou largamente ao longo desta década e hoje acredito estarmos bem mais informados. E não só a respeito da escrita afro-brasileira propriamente dita, mas de todo um contexto histórico que exclui o negro da literatura e da cultura erudita como um todo. Além disso, colhemos depoimentos preciosos de autores como Abdias Nascimento, Oswaldo de Camargo, Cuti e Conceição Evaristo, entre outros, transcritos no volume 4 da coleção. E muito de nossa história ganha sentido novo quando colocado através do olhar das vítimas da pretensa “democracia racial” aqui existente. 
Causa Operária: Quais foram as dificuldades encontradas para a realização da pesquisa? 
Eduardo de Assis: Foram inúmeras. Primeiramente, a extensão do material a ser pesquisado, pois começamos com uma lista de 255 nomes. Em seguida, o estabelecimento de critérios de seleção: depois de muito discutirmos, o grupo definiu que deveríamos ter como foco a produção poética e ficcional, o que deixou de fora os ensaístas, por exemplo. Outro critério estabelecido foi o de, num primeiro momento, privilegiar autores com pelo menos um livro individual publicado. Além disso, não foi fácil encontrar os textos de alguns autores já falecidos ou de fora do eixo Rio-São Paulo. E, ainda, a localização de herdeiros detentores de direitos autorais, só para ficarmos nos obstáculos mais difíceis de transpor. 
Causa Operária: Alguns autores tiveram então que ficar de fora? 
Eduardo de Assis: Sim. Ensaístas do porte de Alberto Guerreiro Ramos, Manoel Querino, Clovis Moura, Lélia Gonzalez e muitos mais. E, também, poetas e ficcionistas sem obra individual ou que não desejam assumir ou explicitar a identidade negra ou afro-brasileira para seus escritos. 
Causa Operária: Existem entendimentos diferentes entre a crítica sobre o que venha a ser a literatura negra? Qual a definição mais corrente? 
Eduardo de Assis: Sim. Há inclusive quem defenda a existência de uma literatura negra escrita por brancos... Ou seja, basta o tema e nada mais. Isso abre espaço para toda uma produção a que chamamos “negrismo”, isto é, marcada pelo descompromisso do olhar externo e folclórico, muito comum entre os modernistas, como Raul Bopp ou Jorge de Lima. Na época, a lucidez de Oswald de Andrade alertou para o que chamava de “macumba para turistas”... O negrismo é forte entre nós e tem tradição, remete à Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, em pleno Romantismo e está em vários outros textos. Voltando à questão conceitual, a definição mais corrente é a de uma literatura escrita por pessoas que assumem a condição de negras, explicitam uma visão de mundo oriunda dessa condição e que se voltam para a escrita, seja para valorizar o vasto repertório cultural herdado dos africanos, seja para protestar e denunciar o racismo e a desigualdade ainda vigentes entre nós. Esse perfil militante caracteriza diversos autores, mas não todos, o que aponta para a insuficiência até certo ponto do conceito.  
Causa Operária: E quanto ao conceito de literatura afro-brasileira?
Eduardo de Assis: Para muitos, é sinônimo de literatura negra. E, de fato, ambos os conceitos adotam critérios comuns em sua constituição, como a autoria, o tema, a busca de um público específico, a linguagem empenhada em combater os tabus linguísticos de fundo racista, entre outros. Mas concordo que “literatura afro-brasileira” é um termo mais amplo, pois engloba aqueles autores que, embora assumindo um ponto de vista identificado ao negro e à sua cultura, fogem do texto abertamente militante ou panfletário; e que, às vezes, falam mais do branco do que do negro, a exemplo de Machado de Assis. Autores, enfim, que manifestam sua negrura (ou negrícia) de modo mais sutil. De todo modo, essa é uma discussão em processo, e de importância apenas relativa. O fundamental é constatarmos que a presença do negro na cultura não se limita à música, à dança ou ao esporte – espaços, aliás, onde muitos os querem confinar. Também na literatura há um grande contingente de autores com textos de relevância histórica e bem construídos enquanto obra de arte. 
Causa Operária: Qual a situação da crítica literária atualmente com relação à literatura negra? 
Eduardo de Assis: No passado, salvo algumas exceções, a atitude era de deliberado desconhecimento. E são raros os manuais de história da literatura brasileira que abordam autores como Luiz Gama, Solano Trindade ou Abdias Nascimento. No presente, nota-se um interesse maior, tanto em autores vivos – Nei Lopes, Cuti, Miriam Alves, Joel Rufino dos Santos, Oswaldo de Camargo, Éle Semog, Conceição Evaristo, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, Salgado Maranhão, Edimilson de Almeida Pereira –, quanto no processo de redescoberta de nomes como os paulistas Lino Guedes (que deixou 13 livros publicados nas décadas de 1930 e 1940) e Paulo Colina, o paraense Bruno de Menezes, o paraibano Arnaldo Xavier, o maranhense Nascimento Moraes, o gaúcho Oliveira Silveira, o mineiro Adão Ventura, e vários outros. 
Causa Operária: Como a literatura negra se relaciona com a literatura brasileira em geral e qual a importância de um segmento especificamente negro em nossas letras? 
Eduardo de Assis: A literatura afro-brasileira jamais deixará de ser brasileira, de ser escrita em português do Brasil (com todas as contribuições vocabulares trazidas pelos africanos e seus descendentes), de utilizar praticamente os mesmos gêneros literários, procedimentos e formas de expressão. É, portanto, um segmento, uma faceta específica de nossa literatura. Mas que reivindica sua autonomia, sobretudo quanto a um ponto de vista identificado com a cultura e com a história de lutas do povo negro. Ponto de vista que se traduz, por exemplo, na desconstrução de estereótipos racistas, via de regra manifestos na linguagem. A vertente afro confere à literatura brasileira uma maior diversidade e variedade de abordagens, seja no enfoque da questão social, seja na linguagem com que toda essa história é traduzida em palavras, pois registra o olhar do Outro, do subalterno que quase nunca pode falar. 
Causa Operária: A literatura negra é ainda vista como um segmento marginal da literatura brasileira? 
Eduardo de Assis: Em alguns salões – e muitas salas de aula – infelizmente ainda sim. Mas a história é, antes de tudo, discurso. Logo, precisa ser reescrita a cada dia. Sou otimista e acredito que, no momento em que o Brasil for uma sociedade multiétnica verdadeiramente democrática em todos os sentidos, então seremos todos respeitados em nossas diferenças e não será necessário especificar este ou aquele segmento para que o mesmo possa ser acolhido como parte de nossa civilização. 
Causa Operária: Qual foi a repercussão desse trabalho quando lançado e, em especial, entre o movimento negro? 
Eduardo de Assis: Houve repercussões variadas, inclusive de um poeta que disse que esse assunto não existe... que falar disto é “preconceito cultural”, e muitas outras bobagens. Mas, na grande maioria dos casos, a antologia foi muito bem recebida, entrou na lista dos 10 livros mais importantes de 2011 do jornal O Globo, e esgotou a primeira edição em apenas dois meses. E também no âmbito do movimento negro tivemos uma recepção altamente favorável. O fato é que o negro sempre falou, escreveu e publicou. E hoje continua a falar, escrever e publicar. Só que boa parte dessa produção careceu (e ainda carece) de uma maior visibilidade. 
Causa Operária: Um dia antes do lançamento desse estudo, Ferreira Gullar publicou um artigo na imprensa onde nega a existência de uma “literatura negra”, fala em literatura simplesmente. Como você encara essa opinião de Gullar? 
Eduardo de Assis: Encaro com naturalidade e com todo respeito à diferença. Ele é um homem de outro tempo, nascido na grande fazenda patriarcal brasileira da primeira metade do século passado. Tem suas convicções. Agora, não deixa de ser frustrante ver alguém que já foi de esquerda falar em “literatura simplesmente”, em “literatura tout court” e termos semelhantes, numa posição formalista e esteticista, numa postura burguesa e eurocêntrica, que seus camaradas de geração chamariam simplesmente de alienada... Enfim, uma postura tradicional e acadêmica no pior sentido da expressão. 
Causa Operária: A opinião de Gullar é uma opinião geral? 
Eduardo de Assis: Não acredito. Talvez seja a opinião da Folha de S. Paulo, onde a crônica dele foi publicada e que não acatou nenhuma das réplicas que para lá foram enviadas. 
Causa Operária: Qual a situação da literatura negra hoje?  
Eduardo de Assis: Considero que é de franco crescimento. Nos últimos anos, saíram pelo menos 10 bons romances, assinados por Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes, Francisco Maciel, Paulo Lins, Conceição Evaristo, Oswaldo Faustino, Ana Maria Gonçalves, entre outros. Um defeito de cor, escrito por esta última, ganhou o Prêmio Casa de las Américas de 2006, e Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, vendeu nada menos que 20.000 exemplares no Brasil, além de esgotar a tradução norte-americana. Ainda na ficção, temos a nova edição de A descoberta do frio, de Oswaldo de Camargo, e diversos volumes de contos, de autoras como Miriam Alves, Lia Vieira, a própria Conceição Evaristo, além de jovens como Lande Onawale, Cristiane Sobral, Cidinha da Silva, Ademiro Alves (Sacolinha), Allan da Rosa, e muitos mais. Na poesia, estão em plena atividade Cuti, Edimilson de Almeida Pereira, José Carlos Limeira, Salgado Maranhão, Ronald Augusto, Domício Proença Filho, entre tantos. E ainda toda uma geração que passa por Lívia Natália e Mel Adún, na Bahia; Ana Cruz e Cyana Leahy, no Rio de Janeiro; Waldemar Eusébio e Marcos Dias, em Minas. No campo fértil da literatura infantil e infantojuvenil, a cada dia surgem livros novos de Júlio Emílio Braz, Rogério Andrade Barbosa, Heloisa Pires, Joel Rufino dos Santos, Cidinha da Silva, além de toda uma geração de novos autores e autoras buscando espaço no meio editorial. E segue firme a descentralização da produção, com editoras cujo foco é afro: Pallas, no Rio de Janeiro; Selo Negro, em São Paulo; Mazza e Nandyala, em Belo Horizonte. Para concluir, não custa lembrar que a ONG Quilombhoje, de São Paulo, mas com ramificações em todo o país, mantém uma tradição ininterrupta de publicações coletivas desde 1978 – a série Cadernos Negros – que edita todo ano um volume de prosa ou poesia com média de 20 autores por livro. Em 2011, veio a público o número 34.

02/06/2012

Nei Lopes lança três livros e se firma como um dos maiores artistas e intelectuais do samba

Nei Lopes em Seropédica, onde vive: autor de 700 músicas e 30 livros, ele estará sábado na Festa Literária de Santa Teresa
Foto: Leonardo Aversa / Agência O GLOBO

Nei Lopes em Seropédica, onde vive: autor de 700 músicas e 30 livros, ele estará sábado na Festa Literária de Santa Teresa Leonardo Aversa / Agência O GLOBO
RIO - Nei Lopes diz que o samba é o elemento em comum entre os três livros que lançará no Parque das Ruínas, dentro da Festa Literária de Santa Teresa, a partir das 16h de sábado, quatro dias antes de completar 70 anos. Mas a afirmação beira o óbvio diante do fato de que o autor é um dos maiores nomes do samba, como compositor e como pensador. O que os três livros da editora Pallas reforçam é seu papel como historiador de manifestações e tradições que estão distantes das hegemonias culturais, sociais e geográficas do Rio e do Brasil. Ao ampliar sua obra, que se aproxima dos 30 títulos, Nei se firma como artista e intelectual interessado nos avessos do país.
O romance "A lua triste descamba" tem como universo os primórdios do samba, sobretudo em Madureira, entre os anos 1920 e 40. É a segunda etapa de uma trilogia iniciada com "Mandingas da mulata velha na Cidade Nova" (2009), que se passava na década de 1910. O "Dicionário da hinterlândia carioca" traça um painel do subúrbio, sistematizando as informações que o divertido "Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos" (2001) transmitiu em forma de crônica. E a edição ampliada do "Novo dicionário banto do Brasil" é o mais recente capítulo das pesquisas etimológicas de Nei, sempre voltadas para as línguas africanas.
— Sei que pode parecer afirmação pretensiosa, mas não é, é constatação: Lima Barreto disse que um dia escreveria a história do negro no Brasil, e de certa forma eu já fiz isso; Machado de Assis, no "Memorial de Aires", disse que estava para se escrever a história do subúrbio carioca, e eu já fiz também. Não que tivesse tomado essas coisas como missão. Foram a curtição e a vivência desses ambientes que me levaram a isso. Tenho feito tudo com sentimento — afirma Nei. 
Imagem de ranzinza
Ele se formou advogado em 1966, exercendo a profissão até 1972, quando passou a viver de música. Não fez mestrado e doutorado, tendo construído uma carreira de pesquisador à margem de títulos e elogios acadêmicos. Só recentemente começou a ser respeitado por núcleos de intelectuais que trabalham em áreas próximas às dele.
— A academia é muito corporativista, mas isso está acabando. Ainda mais agora, com a decisão do Supremo — diz, referindo-se ao reconhecimento da constitucionalidade das cotas raciais nas universidades, motivo de óbvio contentamento para ele. — Foi desconstruído todo um edifício de argumentos.
Seus argumentos demoraram a ganhar consistência e só se solidificaram a partir do empurrão de uma tragédia. Nei diz que, na década de 1970, estava preocupado em sobreviver e fazer música. Compôs muitos sucessos, principalmente com Wilson Moreira: "Senhora liberdade", "Goiabada cascão", "Coisa da antiga", "Gostoso veneno", "Gotas de veneno". E combinou arte e militância seguindo Candeia no centro de cultura negra e escola de samba Quilombo. Mas foi em 1981, quando seu filho Brício morreu afogado aos 4 anos, que a grande virada se deu.
— Pensaram: "Esse cara vai desbundar." Mas mudei para melhor. Comecei a estudar mais, escrever, pensar. E, depois, veio a religião para dar o suporte. Tive a oportunidade rara de conhecer em Cuba a vertente da religião afro-americana que embasa tudo, que é o fundamento. Isso me ajudou a superar a perda e a organizar a vida — conta ele, pai de outro filho e avô de dois netos.
Com os estudos, os escritos e os pensamentos veio a imagem pública de ranzinza, polemista em assuntos como racismo, cotas e cultura pop. É uma imagem que não se encaixa nas suas letras de música, quase sempre divertidas, cheias de malandragem, breques, gírias e gafieiras, como "Tempo do Dondon" e "Baile no Elite".
— Construíram para mim uma persona que não é verdadeira. Sou bem-humorado, meu estado de espírito normal é a sátira, a brincadeira, a crônica. Mas tem hora de falar sério também. Quando se consegue falar de coisa séria parecendo que é sacanagem, melhor — diverte-se.
Nei é o caçula de 13 irmãos de uma ampla e tradicional família do Irajá — bairro que homenageou em seu "Samba do Irajá" ("É isso aí! Ê Irajá/ Meu samba é a única coisa que eu posso te dar"). Viveu e ouviu inúmeras histórias suburbanas, do Méier à antiga Zona Rural. Procurou organizá-las no "Dicionário da hinterlândia carioca" — hinterlândia é um termo das ciências sociais para definir áreas geográficas do interior. A Festa da Penha, a Fera da Penha, a Noivinha da Pavuna, os clubes de futebol, as escolas de samba, muita coisa está nos verbetes.
— Acho que o livro pode dar pé por causa do momento atual da cultura carioca, de visibilidade para esse outro lado — aposta.
Nei vive desde 2000 para além do outro lado. Decidiu morar em Seropédica, Baixada Fluminense. A mudança de Vila Isabel, onde diz que era "muito solicitado para farra", para um lugar isolado influiu decisivamente no aumento de sua produção literária ("Brinco que não tenho o que fazer, então escrevo bobagens") e num olhar crítico sobre o Rio.
— Tudo aqui é mais difícil — atesta, num dia de chuva forte e telefone mudo, na varanda de casa. — As carências estabelecem um comparativo. Tenho uma visão melhor da realidade, sem o oba oba do carioca.
Não se espere dele empolgação com o suposto bom momento do samba. Embora ressalte não ter a fórmula para transformar o micro em macro, aponta que "a Lapa não gera o disco que poderia tocar no rádio, estar na TV e criar uma cadeia de produção, como os sertanejos".
— Dizem que o samba tem mídia, mas não tem. Você liga o rádio e praticamente não ouve. Não é dada ao samba a importância que ele merece. O país é extremamente colonizado em termos culturais. As pessoas não percebem como é feia essa dependência. É o cara sempre voltado para o exterior, não olhando para as coisas daqui — toca Nei num ponto em que não consegue coro de muitos artistas. 
Fora das escolas de samba
Do Salgueiro — de onde participou, como componente de ala e depois compositor, entre 1963 e 1989 — e do ambiente das escolas de samba, ele se afastou por vê-las distantes do sentido civilizatório que havia em sua origem, quando punham no centro da cidade (nos sentidos físico e metafórico) expressões e personagens que habitualmente estavam à margem. São essas expressões e esses personagens que ganham destaque em seus livros, como "A lua triste descamba", no qual figuras como Juvenal e Mário de Madureira são colagens de pessoas que realmente existiram.
— Cada núcleo fundador de escola de samba tem sua história a ser contada. Por exemplo: quem foi Claudionor, da Portela? Dizem que foi o maior passista do samba no tempo em que não existia passista. A mitologia e o repertório dessas pessoas vão se perdendo. Para mim, é mais confortável, menos questionável e mais livre tratar disso como ficção — aponta Nei, que retirou o título do romance de um verso de sua tia Zica, lendária portelense.
Ele começa a preparar um livro que abordará esses temas não pelo viés da ficção. Será um "Dicionário histórico e crítico do samba" (nome provisório). E fechará a trilogia ficcional com uma história ambientada nos anos 1950, mais uma vez com negros como protagonistas.
Antes, no entanto, o autor de cerca de 700 composições vai comemorar 70 anos também com samba. Em 27 de maio, autografa os três novos livros numa festa musical no Candongueiro, em Niterói. A gravadora Fina Flor lançará até julho "Samba de fundamento", seleção feita por ele de faixas de seus dois últimos CDs, "Partido ao cubo" e "Chutando o balde". E, se o projeto tiver os recursos necessários, gravará um disco com a orquestra paulistana Heartbreakers, de Guga Stroeter, cantando sucessos do chamado pagode de fundo de quintal (Almir Guineto, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila etc.) em roupagem de gala.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/nei-lopes-lanca-tres-livros-se-firma-como-um-dos-maiores-artistas-intelectuais-do-samba-4791816#ixzz1uK1FglW3
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30/05/2012

Contornos do dia que vem vindo - Léonora Miano




Contornos do dia que vem vindo, de Léonora Miano é o próximo livro a ser discutido pelo grupo Quilomboletras. Depois eu posto meus comentários. Por enquanto reproduzo o primeiro parágrafo da orelha " Depois da guerra que devastou Mboasu, um país africano imaginário, os pais não conseguem mais cuidar de seus filhos. Estes são expulsos de casa, acusados de serem a causa de todos os males"...

07/05/2012

África, Futuro mais que perfeito

Mais uma da page "Negro é lindo" direto do Facebook. Como eu disse na postagem : "São esses carinhos que alegram o meu dia! Novamente foto e texto casaram harmoniosamente." Simbora!








ÁFRICA, FUTURO MAIS QUE PERFEITO


se o meu canto assenta o axé
é que deixei o pranto acabrunhado
na primeira esquina de quatro pontas
sob o olhar desconfiado
de um guardião de muita fé


se o meu canto ainda lembra Palmares
(eita saudades...)
são lembranças de uma terra que não vivi
não senti o cheiro de seus lírios
o toque do marfim nas delicadas tranças
a beleza dos seus rios
espelhando seios de mulheres lindas(e são tantas)
meu canto é fruto de sonho coletivo
futuro mais que perfeito
é cantiga feminina, nas belas vozes das tias


quero que o meu canto reúna felicidade
alvoroço de crianças
sob o solzinho da tarde
África da paz, de amor sem fronteiras
e este é o nosso canto:


"Canta pra assentar o axé, iô
canta pra espalhar o axé...''

(Autor: Sergio Ballouk -in Enqto o tambor não chama)

27/04/2012

COTA É SÓ A GOTA: STF julga constitucionais as cotas raciais em universidades

matéria postada no iG São Paulo | 26/04/2012 10:23:23 - Atualizada às

STF julga constitucionais as cotas raciais em universidades

Por unanimidade, ministros votaram a favor da reserva de vagas para negros no ensino superior

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou, por unanimidade, improcedente a ação que questionava o sistema de cotas raciais em instituições públicas de ensino superior. Dez ministros votaram pela constitucionalidade das cotas raciais: Ricardo Lewandowski, Luiz Fux, Rosa Weber, Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa, Cezar Peluso, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e o presidente Ayres Britto. O ministro Dias Toffoli não participa do julgamento porque deu parecer a favor das cotas quando era advogado-geral da União.

 
 
 
Foto: Agência Brasil Platéia que assistiu o julgamento do STF sobre cotas para negros
Foram dois dias de julgamento. Na quarta-feira, apenas Ricardo Lewandowski, relator da ação, concluiu que a política de cotas da Universidade de Brasília (UnB) é constitucional e julgou “totalmente improcedente” a ação do partido Democratas (DEM) que a questiona. Após o voto, o presidente do STF, ministro Ayres Britto, encerrou a sessão que foi retomada nesta tarde, às 14h30.
Lewandowski afirmou que o Estado pode lançar mão de ações afirmativas que atingem grupos sociais determinados, de modo a permitir-lhes a superação de desigualdades históricas. O relator apontou que os critérios objetivos, “pretensamente isonômicos”, do vestibular quando empregados de forma linear em sociedades marcadamente desiguais como a brasileira, acabam por consolidar ou até mesmo acirrar as desigualdades existentes. Lewandowski também destacou que as ações afirmativas são temporárias.
Entenda as ações e os argumentos dos dois lados
O ministro Luiz Fux abriu o segundo dia do julgamento e seguiu Lewandowski, votando pela improcedência da ação do DEM. Fux elogiou o voto do relator e leu uma carta aberta do Centro Acadêmico da UERJ, que adota o sistema de reserva de vagas há 10 anos. Os alunos citam que a universidade se tornou um ambiente “mais democrático, menos desigual e, principalmente, mais brasileiro”. O ministro também argumentou que opressão racial dos anos da sociedade escravocrata brasileira deixou cicatrizes no campo da educação. “De escravos de um senhor, (os negros) passaram a ser escravos de um sistema”, ressaltou.
Durante a fala de Fux, a sessão deve de ser interrompida para a retirada de membros da comunidade indígena que protestavam por não estarem sendo citados no tema das cotas raciais. A fala dos participantes da tribuna não é permitida durante o voto dos ministros.

A ministra Rosa Weber também considerou a política de cotas constitucional. Na avaliação da magistrada, a disparidade racial é flagrante na sociedade brasileira e, como a condição social e histórica especifica dos negros os afasta das mesmas oportunidades que os brancos, a intervenção estatal para diminuir essa desigualdade é valida. “Liberdade e igualdade andam de mãos dadas. Para ser livre é preciso ser igual, para ser igual é preciso ser livre”, destacou a ministra.

Cármen Lúcia também seguiu o relator e votou pela improcedência da ação contra as cotas raciais da UnB. Para a ministra, as ações afirmativas não são a melhor opção, o ideal seria termos uma sociedade na qual todos fossem igualmente livres para ser o que quiserem. Cármen concluiu que as cotas da UnB não colidem com a constituição, mas ao contrário, contribuem para todos se sentirem iguais.
Joaquim Barbosa, vice-presidente do STF e o único ministro negro da Corte, também acompanhou o voto do relator. Barbosa destacou que sua opinião sobre o tema já é de conhecimento público e inclusive foi objeto de um livro publicado há 11 anos. O ministro afirmou que as ações afirmativas sofrem resistência, "sobretudo, da parte daqueles que se beneficiam ou se beneficiaram da discriminação que são vítimas os grupos minoritários". Ele ressaltou também que o objetivo das ações afirmativas é combater a discriminação de fato, arraigada na sociedade, e promover a harmonia e paz social.
O ministro Cezar Peluso iniciou sua fala dizendo que seria desnecessário acrescentar qualquer consideração ao voto do relator, e acompanhou integralmente a decisão de Lewandowski. Para Peluso, as ações afirmativas são um experimento que o Estado brasileiro está fazendo e que poderá ser verificado e aperfeiçoado.

Gilmar Mendes também julgou improcedente a ação, mas apontou ressalvas ao modelo da UnB. Ele ressaltou o problema dos chamados “tribunais raciais”, comissões que julgam se os alunos são negros ou não e que ocasionalmente cometem erros, como nos casos de candidatos irmãos que foram classificados com raças diferentes. O ministro destacou as “enormes dificuldades na classificação” dos estudantes e as poucas vagas nos cursos, que causam tensão entre os candidatos – Direito na UnB, por exemplo, tem 50 vagas. Ele apontou em seu voto que tem muitas dúvidas sobre o critério puramente racial das cotas, que permite distorções socioeconômicas e pode “gerar perversões” ao privilegiar pessoas negras ricas que tenham tido boas condições de estudo.

Marco Aurélio também foi totalmente favorável as cotas. O ministro recuperou a ideia de igualdade na história das constituições e falou de como havia diferença entre o direito e a realidade dos fatos. “Até chegar ao quadro de 1988, havia apenas formalização da igualdade. Na atual constituição dita cidadã, sinalizou-se mudança de postura”, disse citando a escolha de uso de verbos que evidenciava uma tentativa de mudança de postura. Leu os trechos “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, “garantir o desenvolvimento nacional, não de forma estática, mas ativa” e “Promover o bem de todos sem preconceito”. Para ele "a neutralidade mostrou-se um grande fracasso".

Celso de Mello acompanhou integralmente o relator. "Esse julgamento é sobre um dos mais importantes temas no Brasil. Traduz o compromisso que o País assumiu ao assinar cartas internacionais. Extrair a máxima eficácia das declarações em ordem a tornar possível os ganhos sociais reconhecidos em favor de quaisquer grupos é dever de todos nós".
O presidente do tribunal, Ayres Britto, falou por último e adiantou o seu voto com o relator antes mesmo de argumentar. "Quem não sofre preconceito pela cor da sua pele, não se sente igual, se sente superior. Nunca houve necessidade de constituição para beneficiar os hegemônicos, só foi proclamada igualdade para favorecer os desfavorecidos. Os brancos e heterossexuais nunca precisaram de constituição."



Foto: Agência Brasil O presidente do STF, ministro Ayres Britto, e o relator da ação, ministro Ricardo Lewandowski, durante o julgamento das cotas (25/04)
Apesar da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186, impetrada pelo DEM em 2009, ser específica e questionar a constitucionalidade do programa que reserva 20% das vagas da UnB para negros, a decisão do Supremo determinará jurisprudência sobre as cotas e influenciará futuras decisões do Congresso Nacional sobre leis que reservam vagas em universidades.
Junto dessa ação, há um recurso feito por um estudante que alega ter sido prejudicado com o sistema de cotas implementado pela Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS). No Recurso Extraordinário 597.285, de 2009, ele pede a inconstitucionalidade do sistema.

Leia também: Ministro Joaquim Barbosa é usado como "exemplo negro" em julgamento de cotas
Os argumentos contra e a favor das cotas já foram bastante debatidos dentro do STF. Em 2010, o ministro relator da ação, Ricardo Lewandowski, realizou audiências públicas com especialistas em educação, professores e advogados para tratarem do tema.
Primeiro dia
O primeiro dia do julgamento começou com a sustentação oral de Roberta Fragoso, advogada do DEM, que argumentou que os critérios para a definição da cor do estudante e que as cotas raciais estimulariam o racismo ao dividir a sociedade em raças. Roberta citou ainda um estudo que comprova que mesmo com a aparência negra as pessoas podem ter a maior porcentagem de sua ancestralidade europeia, como Neguinho da Beija Flor e a ginasta Dayane dos Santos.
Em seguida, a procuradora federal Indira Quaresma falou pela UnB e defendeu o sistema de cotas raciais da universidade por ser “reparatório para corrigir as injustiças do passado”. A procuradora respondeu às críticas sobre a dificuldade de definir a raça de uma pessoa em uma sociedade miscigenada afirmando que “os olhares brasileiros identificam os negros em qualquer ambiente” e que as ciências naturais não são superiores às ciências sociais.
Pela Advocacia Geral da União, falou Luis Inácio Lucena Adams, que declarou improcedente a ação do DEM e defendeu as políticas de ação afirmativa do governo federal. Adams destacou que o Brasil sempre participou do compromisso de promover uma sociedade racialmente mais igualitária, mas que não realizou ações suficientes para tal. O advogado-geral da União apontou ainda que o Brasil precisa enfrentar este desafio para ser um país de primeiro mundo.
Em seguida, falaram amigos da corte, representantes de movimentos sociais que deram sua opinião para auxiliar os magistrados a chegar a uma decisão. A primeira parte do julgamento foi finalizada pela vice-procuradora geral da República, Déborah Duprah, que falou pelo Ministério Público Federal. Ela também pediu à corte a improcedência da ação e criticou o argumento de que as cotas deveriam ser somente para estudantes pobres, lembrando que há políticas de cotas para mulheres e para deficientes físicos sem o recorte social. “Por que essa questão (social) só aparece nas cotas raciais?”, provocou.
Prouni
Outra ação que estava na agenda do SFT para ser analisaria a partir de quarta-feira é o programa do governo federal que dá bolsas a jovens de baixa renda em instituições privadas de ensino. A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) impetrada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) contra o programa alega que as instituições filantrópicas, por determinação da Constituição Federal, não pagam impostos. Com as exigências do Ministério da Educação (MEC) para a oferta de números mínimos de bolsas por elas, a entidade acredita que a lei de criação do Prouni fere a constituição.


GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA
Cuti (Luiz Silva)
 

cota é só a gota
a derramar o copo
não a mágoa do corpo
mas energia represada
que agora se permite e voa
em secular esforço
de superar-se coisa e se fazer pessoa
 

cota é só a gota
apenas nota de longa pauta
a ser tocada
com o fino arco
em mãos calosas
 

cota é só a gota 
a explodir o espanto
de se enxugar no riso
a imensidão do pranto
 

ela é só a gota
ruindo pela base
a torre de narciso
 

é só a gota
entusiasmo na rota
afirmativa
que ameniza as dores da saga
suas chagas de desigualdade amarga
 

cota é só a gota
meta de quem pagou e paga
desmedido preço de viver imposto
e agora exige
seu direito a voto
na partição do bolo
 

é só a gota
de um mar de dívidas
contraídas
pelos que sempre tornaram gorda a sua cota
 

cota é só a gota afrouxando botas
de um exército
para o exercício da eqüidade
 

cota não reforça derrota
equilibra
entre ponto de partida
e ponto de chegada
a vitória coletiva
reinventada.
( in: Negroesia, p.73)

16/04/2012

A MENINA ÍCARO - Helen Oyeyemi







Helen Oyeyemi
Intriga inicialmente pela capa, sabe-se que é uma criança negra, encolhida e suja, acinzentada, não dá maiores pistas. A Menina Ícaro de Helen Oyeyemi é fruto de admiração, sendo este  o seu primeiro romance, escrito durante os anos no ensino médio. Uma grande parábola sobre libertar-se e suas conseqüências. Ou simplesmente Voe, como costuma dizer Oubi Inaê Kibuko, um dos participantes da discussão do Quilomboletras deste último sábado.   Jessamy Harrisson  ( Jess, Jessy ou Wuraola) é o personagem que nos transporta em seu universo de descobertas,  incertezas, medos, com a varredura de olhar proporcionado por uma notável escritora, muito embora causando certa estranheza, se pensarmos que se trata de personagem de oito anos. E muitas vezes, até mesmo pela quantidade de páginas (penso que poderia ser enxugado!), e dinâmica da narrativa, rápida, suspense, texto repleto de oralidade Segue buscando carreira de best-sellers?. Sim, é possível.  Antecipando a trama, cheguei a  acreditar que se tratasse de problema de múltipla identidade com o aparecimento de Tilly Tilly(Titiola), a mulher de braços compridos, Fern ( a irmã gêmea morta). Ledo engano, a coisa é mais embaixo, ou dentro, ou muitas outras incógnitas, essa é a impressão que fica, quantas incógnitas...
Deixando um pouco de lado Jessy, assim chamada na presença da arteira Tilly Tilly, vale destaque o avó nigeriano Baba Gbenga, sua força patriarcal e representação mítica.
Já disse muito. Aventure-se, Voe e boa leitura!

13/04/2012

EU, ELES, NOZES E VOZES


Amigos estarei  dia 28/04  no CEU JAÇANÃ participando do evento EU, ELES, NOZES E VOZES. Farei o que gosto de fazer: declamar poemas e homenagear Carolina Maria de Jesus, dialogando com as fotos Carolineando de Diego Balbino. Compareçam.


 

Nos dias 14, 21, 28/04 e 05/05 acontece o evento gratuito: Eu, Eles, Nozes e Vozes... Um Tanto de Gente, Um Tanto de Arte
O Movimento Cena Norte realizará nos dias 14, 21, 28/04 e 05/05 o evento, sem fins lucrativos, “Eu, Eles, Nozes e Vozes... Um Tanto de Gente, Um Tanto de Arte”.
Único na sua modalidade, contará com diversos grupos artísticos, profissionais e amadores que se apresentarão gratuitamente nos espaços do CEU Jaçanã, Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso e Senac Santana. 
Sempre com início às 13h, segue abaixo a programação.   


14/04: Ceu Jaçanã  
Banda Groove (Mpb), Grupo Teatral Meal (Mocidade Espírita André Luiz), Cantora Carla Casado, Cultura dos Tambores, Grupo Teatral Odisséia, Grupo Teatral a Palavra e o Gesto, Grupo de Dança Africambo, Maestro Ricardo Boaventura (Fanfarra), Mali (Samba E Percussão), Dora Coppola(Atriz Solo), Coral Vozes Do Caminho, Diego Balbino (Exposição De Fotos). 


21/04: Centro Cultural Da Juventude Ruth Cardoso 
Banda Bora (Rock), Maestro Rodrigo de Souza Pinto e Alunos da Rede Municipal da Emef General Júlio Marcondes Salgado, Bruno Brasil (Músico Mpb), Grupo De Dança Africambo, Cia Ícaro (Balé), Teatro Silva, Agitaí Brasil, Diego Balbino (Exposição De Fotos). 


28/04: Ceu Jaçanã 
Banda Vento Motivo (Rock), Fanfarra com o Maestro Fábio Boaventura, Renato Parada (Cantor De Mpb), Sergio Ballouk (Poesia), Grupo Teatral na Corda Bamba, Cigana Rosa Rubro (Dança Cigana, Grupo de Dança Hip Hop do Ceu Jaçanã, Sergio Ballouk (Poesia), Quadrela Cia De Dança, A Maestrina Miriam (Fafarra), Cultura dos Tambores (Jongo e Maculelê), Diego Balbino (Exposição De Fotos). 

05/05: Senac Santana 
Grupo de Artes Cênicas (O Telefone), Improrriso Comédia Stand Up, Grupo Teatral Off Off Broadway, Grupo De Artes Cênicas (Horóscopo), Grupo De Artes Cênicas (Negócios de Ocasião). 
Super programação imperdível!
Mais informações: CEU Jaçanã 11 3397-3977




12/04/2012

Sergio Ballouk - Estrelas nos Passos (A Favela)





Estrelas nos Passos ( A Favela) - O preço do metro quadrado deveria ser menor do que a necessidade humana de moradia. Na avenida Paulista os imóveis não precisam "pegar fogo" pra que saiam os inquilinos inadimplentes.

Clique aqui para ouvir:    Sergio Ballouk - A Favela -
 

Poesia gravada no Estudio "Play na Poesia" Trilha feita por Iuri Stocco. Conheça melhor o Projeto www.playnapoesia.com.br

06/04/2012

Herança maldita ???

O assunto em si é interessante, leitura prezerosa, gostosa de acompanhar, agora, utilizar o título Herança Maldita, forçou ôô Carta Capital. Parece chamada de filme do Boris Karloff, terror puro. Ou lembrando um poema  "Terror negro encarnado"

Entrevista

09.03.2012 17:57

Herança maldita

Para o organizador da recém-lançada antologia de Literatura e Afrodescendência no Brasil, os autores negros continuam sendo ignorados. Foto: Washington Alves
Em 2011 um comercial da Caixa Econômica Federal retratou o escritor Machado de Assis como um dos mais antigos correntistas da empresa. O objetivo era comemorar os 150 anos da instituição, mas o resultado foi uma chuva de críticas de entidades ligadas às questões raciais. A peça trazia Machado, um afrodescendente, interpretado por um ator branco. Criticada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), a Caixa prontamente tirou o vídeo do ar com um pedido de desculpas.
Para o especialista em literatura afro-brasileira Eduardo de Assis Duarte, o caso foi apenas mais um no esforço histórico para apagar as raízes africanas do escritor. Lançada em 2011 e organizada por Duarte, a antologia Literatura e Afrodescendência no Brasil (Editora UFMG) reúne vida, obra e análise crítica de cem autores negros em 2 mil páginas e quatro volumes. O objetivo é ampliar a visibilidade e a reflexão a respeito dos escritores afro-brasileiros. Em entrevista concedida por telefone a Carta na Escola, o doutor em Literatura pela USP fala de novas leituras possíveis de autores consagrados, de preconceito e dos entraves ao ensino da literatura afro-brasileira nas escolas.
Carta na Escola: Como o professor pode usar a antologia Literatura e Afrodescendência no Brasil para selecionar autores e ler com seus alunos?
Eduardo de Assis Duarte: A antologia é fruto de uma pesquisa de dez anos, envolvendo 65 professores e pesquisadores vinculados a 21 universidades brasileiras e a seis universidades estrangeiras. Pro-curamos cobrir a produção dos afro-brasileiros em todas as regiões do País e, com isso, dar visibilidade a autores relegados, tanto por estarem distantes dos grandes centros -como por tratar da questão racial. Procuramos construir uma obra útil ao professor em diversos sentidos. Lá, ele encontra não apenas autores completamente esquecidos, como o poeta paulista negro Lino Guedes, como também autores clássicos, como Machado de Assis, que foram embranquecidos pelo sistema e apresentados como indivíduos alienados de sua condição étnico-racial e mesmo alheios aos problemas do seu tempo.
CE: Como o senhor definiria a literatura afro-brasileira? Ela é caracterizada pelo autor ou pela temática?
EAD: Pelos dois. Mas, isoladamente, nem o autor nem a temática são suficientes. Porque há, por exemplo, autores brancos que falam do negro a partir de uma -perspectiva dominante, europeia. E, muitas vezes, o negro é colocado como uma figura folclórica ou apenas como o tema. É preciso uma articulação entre autoria e temática e, subjacente a ambas, o ponto de vista identificado com a afrodescendência, ou seja, com a visão de mundo do negro. Quando você tem um ponto de vista afro identificado, isso interfere na linguagem, e a linguagem dessa literatura surge despida dos estereótipos e dos valores disseminados pelo o que a gente chama de “branquitude” hegemônica. Essa conjunção de autoria, temática, ponto de vista e linguagem – todos eles fundados no ser e no existir do negro – visa atingir um quinto elemento dessa construção cultural, que é a formação de um público receptor afrodescendente. Só a partir dessas cinco instâncias é possível falar de uma literatura afro-brasileira ou negra na plenitude do termo.
CE: Alguns autores como Cruz e Sousa e Lima Barreto já são estudados nas aulas de Literatura, tratá-los como autores afro-brasileiros mudaria o modo como são estudados?
EAD: Sem dúvida. Cruz e Sousa é apresentado aos estudantes como um “negro de alma branca”, um poeta alienado de sua condição étnica e social. E, em geral, só são lidos seus primeiros textos, marcados pelas repetições de imagens caras ao simbolismo. Os textos mais maduros, como  Emparedado, em que ele faz uma crítica muito forte ao racismo embutido na ciência e na filosofia da segunda metade do século XIX, ficam de fora. Então, ver Cruz e Sousa como um autor negro dá abertura para a leitura desses textos mais políticos. A mesma coisa com Lima Barreto. Ele é apresentado como um romancista menor, uma espécie de cronista de subúrbio, ainda acusado de escrever mal. Com isso, fica de lado todo um trabalho de Lima Barreto com os afrodescendentes. Eu citaria, por exemplo, o preconceito racial que é transformado em drama literário por ele. Essa questão está presente em dois de seus romances esquecidos. O primeiro é Recordações do Escrivão Isaías Caminha e o outro é Clara dos Anjos, em que a questão da mulher afrodescendente é colocada de outra forma. Normalmente, a literatura brasileira hegemônica trata a mulata dentro daqueles estereótipos da mulata assanhada e sensual. Em Clara dos Anjos a coisa é diferente: você tem um caso de sedução de uma menina mulata por um branco, em que ela é abandonada. As relações inter-raciais são trabalhadas tanto em Lima Barreto quanto em Cruz e Sousa de maneira problemática e não como um aspecto folclórico, festivo, carnavalesco do País.
CE: Recentemente, tivemos o caso do comercial da Caixa Econômica Federal que mostrava um Machado de Assis “embranquecido”. O que caracteriza Machado de Assis como um escritor afrodescendente? Existe esforço da crítica em minimizar esse fato?
EAD: É um problema. Há um esforço histórico no Brasil de embranquecimento de Machado de Assis. Quando Machado morre em 1908, foram emitidos dois documentos. O primeiro é um atestado de óbito que afirma que ele é branco. Mas a máscara mortuária, tirada no mesmo dia, expressa com toda nitidez seus traços de afrodescendente. O episódio da Caixa Econômica é apenas mais um capítulo e deve-se destacar, inclusive, a pronta intervenção dos órgãos governamentais que, sensíveis às milhares de mensagens de protesto surgidas na internet, logo se desculparam e substituíram o comercial. Os romances machadianos recusam o panfletarismo e o imediatismo da luta política daquela época e adotam a “poética da dissimulação”, conjunto de procedimentos em que a ironia é apenas a ponta do iceberg. Muitas vezes, para falar do negro, Machado fala do branco. Um ponto curioso no projeto romanesco do escritor é que ele mata os senhores de escravos em quase todos os livros. Em Memorial de Aires, Machado mata o barão de Santa Pia logo após o fim da escravidão. O velho escravocrata não aguenta ver a festa dos negros celebrando a abolição e morre três semanas depois. O curioso é que a herdeira da fazenda distribui a terra entre os antigos escravos. É a primeira cena de reforma agrária do romance brasileiro. Ninguém comenta isso. Machado sempre foi contra a escravidão, mas havia um pudor imenso quanto à utilização do texto panfletário na literatura. Nas crônicas, que são muito pouco estudadas, ele é muito mais explícito. Mas ali ele estava protegido pelo pseudônimo. José Galante de Sousa, um dos maiores estudiosos da obra machadiana, anotou 23 pseudônimos em textos de Machado de Assis.
CE: O escritor moçambicano Mia Couto, na Conferência Internacional de Literatura, em Estocolmo, declarou que “a África tem sido sujeita a sucessivos processos de essencialização e folclorização, e muito daquilo que se proclama como autenticamente africano resulta de invenções feitas fora do continente. Os escritores africanos sofreram durante décadas a chamada prova de autenticidade: pedia-se que seus textos traduzissem aquilo que se entendia como sua verdadeira etnicidade”. Em que medida tratar os autores por sua etnia não acaba reduzindo a apreciação de sua produção artística?
EAD: Mia Couto está certo. Há uma idealização da África, mas acontece que essa queixa pode-se aplicar a qualquer outro continente ou país. Basta ver o caso brasileiro: nós habitamos um país “abençoado por Deus e bonito por natureza” e somos um país com uma espécie de “essência mestiça” que nos faz alegres, tolerantes, receptivos, sensuais etc. Quantos de nós não acreditamos piamente nisso? Muitos autores negros vão acabar idealizando uma “Mãe África” até como -forma de se contrapor a essa ideia de -paraíso tropical difundida aqui pelo pensamento hegemônico brasileiro. Quando nós falamos de literatura e afrodescendência, não estamos sendo benevolentes ou abrindo mão de abordagens críticas. Em toda produção cultural há obras boas e ruins. Se hoje muitos escritores fazem questão de se declarar negros e afirmar em seus textos os valores inerentes à essa condição, certamente eles têm razões históricas para isso. Não seria um gesto de legítima defesa? No dia em que o Brasil for uma sociedade multiétnica e verdadeiramente democrática, acho que não vai haver necessidade de cunhar essa vertente das nossas letras com o qualificativo de “negra” ou “afro-brasileira”.
CE: A lei que determina a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira (n.º 10.639/2003) mudou a recepção desse tipo de literatura nas escolas?
EAD: Ela tem mudado, mas muito lentamente. Na maioria das escolas, a lei só é lembrada em 13 de maio e 20 de novembro. Isso porque falta à maioria dos professores capacitação e mesmo repertório para tratar das questões com os alunos de forma adequada. Até hoje, os cursos voltados à formação docente ignoram solenemente a cultura e a literatura afro-brasileira. Mas sou otimista, acho que estamos indo em frente, no caminho certo. Nosso núcleo de pesquisas da UFMG recebe e-mails de professores do Brasil todo, empenhados em trabalhar esses conteúdos.
CE: Quais são os entraves para o ensino efetivo da literatura afro-brasileira nas escolas?
EAD: O principal entrave é o preconceito. Achar que essa literatura é coisa menor, sem relevância ou qualidade estética. Em seguida, outro entrave é a omissão que você vê nos manuais e nos livros didáticos, que ignoram em grande medida esse segmento da literatura brasileira.
CE: Quais são os caminhos que o professor de Ensino Médio deve seguir para abordar o tema da literatura afro-brasileira nas salas de aulas?
EAD: O primeiro caminho é ler os autores. Tenho certeza de que esses professores, quando lerem Solano Trindade, Carolina de Jesus, Joel Rufino dos Santos, Ney Lopes, Miriam Alves, Ana Maria Gonçalves, Oswaldo de Camargo e muitos outros, vão gostar e, se forem de fato educadores, vão querer levá-los para seus alunos.
CE: Como o senhor avalia a atual situação da literatura negra no Brasil? Existe espaço para esses autores nas grandes editoras?
EAD: É um espaço reduzido. Nos últimos 30 anos, houve um grande incremento dessa literatura, mas a partir de esquemas alternativos. Em São Paulo, você tem o grupo Quilombhoje, que publica desde 1978, em forma de produção cooperativada, os Cadernos Negros. Fora isso, há editoras pequenas focadas nessa produção. Aqui em Belo Horizonte, temos duas editoras: a Mazza, com mais de 25 anos, focada nessa temática, e, recentemente, a editora Nandyala. No Rio de Janeiro, há a editora Pallas, com mais de 500 títulos publicados. Em São Paulo, novamente, existe o Selo Negro, do grupo editorial Summus. Mas, quase sempre, as grandes editoras ignoram essa produção, pois estão preocupadas com autores canônicos e também com os best sellers.

ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO!

     ENQUANTO O TAMBOR NÃO CHAMA VIAJANDO! Minha grata surpresa foi a tradução de alguns poemas para o espanhol por Demian Paredes, da Argen...