10/10/2011

LITERATURA E IDEOLOGIA - ALICE WALKER

 
A matéria abaixo foi publicada  em 06/08/11 no Estado de São Paulo. Merece ser lida e relida:

Literatura e ideologia: uma entrevista com Alice Walker

Gostaria de dizer que planejamos tudo desde o começo, mas foi coincidência, mesmo. A capa do Sabático de hoje é um texto, veja bem, cedido pessoalmente pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2000, Gao Xingjian, ao repórter Jotabê Medeiros durante um evento em Turim, algumas semanas atrás. O tema: os embates entre ideologia e literatura. “Podemos dizer que a ideologia foi o mal do século”, argumenta Xingjian.
E tive a confirmação da entrevista por telefone com Alice Walker, Pulitzer de ficção e National Book Award de 1983 por A Cor Púrpura, só na quarta-feira à noite, quando a capa já estava diagramada. Conversei com ela na quinta à tarde, horas antes do fechamento, sobre o livro Rompendo o Silêncio, da Bertrand Brasil, uma seleção de narrativas sobre os dias que ela passou no Congo Oriental, em Ruanda e no Oriente Médio. E a questão é que a literatura de Alice Walker, seja nos romances, seja na poesia, seja nos ensaios, é tão impregnada de ativismo que ela diz achar “impossível” a ideia de uma escrita literária sem ideologia.
Publicados juntos, os dois textos dão margem para uma boa reflexão. Segue a entrevista com ela, veiculada também hoje no Sabático.
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Alice Walker e a dor do mundo
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
“Nunca soube disso que você está falando. Tem certeza de que era eu?”, pergunta a norte-americana Alice Walker, num dos únicos momentos da conversa por telefone com o Sabático em que seu tom de voz, sempre controlado, trai alguma emoção, algo como surpresa ou desconfiança. Havia sido questionada sobre o recente destaque, pela revista Forbes, de seu nome entre as dez escritoras mais poderosas do mundo – isso quase 20 anos após ter escrito A Cor Púrpura (1982), obra que rendeu o primeiro Pulitzer de ficção e o primeiro National Book Award entregues a uma afro-americana. “Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela”, conclui, após a confirmação de que seu nome figurava mesmo ao lado do de Toni Morrison e J.K. Rowling na eclética lista da publicação norte-americana.
Desde muito antes de sua mais famosa obra, adaptada ao cinema em 1983 por Steven Spielberg, Alice não quer saber o que a grande mídia tem a dizer. Mais que isso, tenta sobrepor sua voz à da imprensa do Ocidente. Poeta e ensaísta, além de romancista, a autora de 62 anos, nascida na Georgia, busca fazer ouvir os lamentos das minorias: negros, mulheres, palestinos. Recém-lançado no Brasil, Rompendo o Silêncio – Uma Poeta Diante do Horror em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina/Israel é um exemplo claro. O volume reúne narrativas tão sucintas quanto pungentes sobre duas viagens que fez a convite de organizações internacionais, para a África, em 2006, e para o Oriente Médio, em 2009. São histórias como a da mulher congolesa que teve a perna cortada por pistoleiros, que fritaram e picaram o naco de carne para tentar obrigar os filhos dela a comer. Ou a do judeu que desistiu de visitar Israel porque, nascido enquanto o território ainda se chamava Palestina, era despido e humilhado cada vez que apresentava seus documentos no país.
Alice Walker tem opiniões veementes que chegaram a lhe custar o contato com a filha, Rebecca. Antes do afastamento, a jovem lançou as memórias Black White and Jewish, sobre como o relacionamento complexo dos pais afetou sua identidade – o ex-marido de Alice, com quem a escritora ainda mantém uma relação amigável, é judeu. Na entrevista a seguir, a autora fala sobre ideologia e literatura (tema, aliás, do artigo de Gao Xingjian). Ela defende que a segunda não pode existir sem a primeira.
Por que resolveu juntar as viagens para a África e para o Oriente Médio, feitas em dois momentos diferentes, em um único livro?
Queria mostrar a similaridade entre as atrocidades em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina, porque a maioria das pessoas pensa que essas coisas horríveis em Ruanda ou no Congo só ocorrem em lugares como a África. Mas o que você vê, quando vai ao Oriente Médio, é que o governo israelense bombardeia Gaza por 22 dias e destrói pessoas de formas que nem podemos imaginar. Eles têm bombas que, ao explodir, enviam partículas para dentro dos corpos de pessoas a milhas de distância. E essas feridas não saram, continuam a queimar e apodrecer. As bombas também arrancam extremidades dos corpos; você perde seu braço ou sua perna, mas não há sangue. Isso é similar à maneira como, em Ruanda, as pessoas usam facões para cortar ossos e os corpos das outras. Eu queria fazer os leitores entenderem que a forma mecânica como os assassinatos acontecem na guerra de países civilizados não é nada mais aprimorado que os crimes cometidos face a face num país mais pobre.
Como foi saber de histórias como aquelas, sabendo que escreveria sobre elas depois?
Tomou muito tempo, porque era uma dor intensa. Só de ver e entender o que estava acontecendo tomou tempo. Precisei de amigos que sentassem comigo, me deixassem chorar e ouvissem o que eu tinha testemunhado. Especialmente sobre a mulher cuja perna foi cortada fora. Foi difícil para mim e para eles, é difícil para o mundo. Temos um planeta em que as pessoas fazem coisas assim, e o que podemos fazer a respeito? É por isso que escrevo. Para dividir com o mundo o que vi e essa pergunta.
Em obras como A Cor Púrpura, você escreve sobre violências como essa em seu país. É muito diferente o olhar como visitante?
Muito, embora meu país também tenha história brutal. Meu país fez para os nativos americanos o que vem sendo feito aos palestinos. É crucial entender sua própria história antes de vê-la repetida em outros lugares. As pessoas que não conhecem seu próprio país podem viajar o mundo e nunca vão entender que estão vendo sua história na violência contra outros povos hoje. E a verdade é que uma minoria dos americanos chega a viajar para exterior, então a maioria conhece só o que a mídia diz.
Desde quando você é envolvida com o ativismo em defesa dos palestinos?
Comecei a escrever sobre a situação palestina nos anos 70. Há um texto que escrevi quando da invasão, do massacre, dos grandes desastres no Líbano quando o governo israelense seguiu os refugiados até lá e os matou. Mas comecei a me preocupar muito antes disso, na Guerra de 1967. Eu tinha acabado de me casar com um judeu. Ele achava normal que os israelenses pegassem todas aquelas terras que tinham pego na guerra, e eu não achava. Tenho falado e escrito sobre isso já há algum tempo. Quando você me ligou, agora mesmo, eu estava distraída porque escrevia um poema sobre… Em Gaza, não sei se você sabe, os israelenses bombardeiam o sistema de água dos palestinos, então 90% da água da região não é potável. Ajudei uma organização a instalar um sistema… Bem, um pequeno sistema de água, porque ninguém pode bancar com algo muito grande. Então, estava escrevendo um poema sobre quando você vê as pessoas aplaudirem alguém que acabou de bombardear o sistema de água de um povo. Isso aconteceu recentemente, quando Benjamin Netanyahu (premier de Israel) veio aos Estados Unidos. Ele foi ovacionado muitas vezes, e não tenho certeza de que as pessoas saibam que ele bombardeia o sistema de água de um povo cujas crianças, sem a ajuda dos outros, não teriam nenhuma água para beber.
Chama atenção no livro a forma direta, sem adjetivos, como você descreve as atrocidades que testemunha ou lhe são contadas.
Isso é porque sou contadora de histórias. É deliberado. Isso é mais forte que o jornalismo, acho que porque contar histórias é algo muito mais antigo. Eu, por exemplo, prefiro ouvir audiolivros, porque sinto que, quando me contam um história, posso entendê-la melhor emocionalmente. Em Rompendo o Silêncio, tento conectar nosso tempo ao de Joseph Conrad (1857-1924), o înglês de origem polonesa que escreveu O Coração das Trevas. Nesse livro, que inspirou Apocalipse Now (1979), ele fala sobre o horror na África subsaariana. Esse é um tipo de conexão literária que faço. Também por isso as histórias surgem como um diário de viagem. O personagem dele desce o rio do Congo a barco; eu viajei de ônibus e avião.
Você é conhecida como uma voz feminista, mas uma história que chama a atenção no livro é a da mulher judia cujo marido não volta a Israel porque é sempre humilhado…
Eu me preocupo com todo mundo, mas a história das mulheres tem sido constantemente, nos últimos 2 mil anos, pelo menos, suprimida ou ignorada. É por isso que a literatura não é feminina. Então, quando vou a algum lugar, quero saber o que as mulheres têm a dizer porque elas tendem a ser silenciadas. Você mesmo deve saber disso.
Você descreve os EUA como terroristas…
Acho que qualquer um que começa uma guerra contra qualquer povo é um terrorista. Você não pode fazer uma guerra sem ser terrorista. Como você poderia? As pessoas estão aterrorizadas, você as está matando, elas não têm como escapar. Se isso não é terrorismo, o que é?
Você foi eleita há pouco pela Forbes uma das dez escritoras mais poderosas do mundo. Como essa ideia soa para você?
Nunca soube disso que você está falando, Tem certeza de que era eu?
Sim, faz uns dois meses, numa lista que incluía [a Prêmio Nobel] Toni Morrison e J.K Rowling.
Ora, bem. Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela. Acho que uma coisa boa é saber que, se você não pode mudar de vez o mundo, pode fazer isso um pouco só, usando a imaginação, papel e lápis ou computador. Vale pensar que é possível ensinar às crianças que tentar erradicar povos é uma ideia terrível.
Você não teria interesse em fazer literatura sem mensagem política ou social?
Não, não, isso é impossível. A ideia de que você possa fazer arte sem mensagem política ou social é absurda, mas querem nos dizer isso porque sabem que os povos do terceiro mundo, especialmente mulheres, sempre terão algo crítico a dizer."